Cinema às 8

“O que está por vir”: entre pensamento e ação

Isabelle Huppert e Roman Kolinka

Isabelle Huppert e Roman Kolinka

O novo filme de Mia Hansen-Løve, “O Que Está Por Vir”, é mais uma dessas obras que, à primeira vista, se debruça sobre o nada. Em uma espécie de recorte do cotidiano de um personagem, o filme apresenta dilemas, indica soluções, propõe pensamentos e parte. Se a descrição soa frustrante, o resultado se prova o contrário.

Assim como o ótimo brasileiro “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, é no protagonista que encontramos a riqueza de uma obra de “recorte de vida”. Em “O Que Está Por Vir”, somos apresentados à fascinante Nathalie Chazeaux (Isabelle Huppert), professora de filosofia, casada há 25 anos com outro acadêmico, mãe de dois filhos criados, filha de uma mãe deprimida. O que chama a atenção é a composição da personagem, que parte do que acontece externamente para os questionamentos internos que a acompanham nos 110 minutos de filme.

Se essa construção da personagem já não soasse interessante, Huppert se mostra ainda mais fascinante se lembrarmos que já em 2016 ela se mostrou completamente oposta em “Elle”, de Paul Verhoeven. Se no filme do holandês os dilemas internos se exprimiam na exterioridade na forma de perversão, de controvérsia, aqui, a atuação é minimalista, de nuances. Postos lado a lado, os longas mostram a extensão da atriz e a versatilidade daquela que é, com justiça, vista como uma das melhores atrizes da história do cinema.

Huppert, mais uma vez, é quase uma força da natureza de tão impressionante

Huppert, mais uma vez, é quase uma força da natureza de tão impressionante

“O Que Está Por Vir”, no entanto, não é só atuação. O roteiro, da própria Hansen-Løve, traz um rico embate intelectual sobre pensamento e ação. Na fauna de personagens, há o hermético teórico conservador Heinz (André Marcon), marido de Nathalie, o anarquista subversivo Fabien (Roman Kolinka), pupilo da professora, e a própria acadêmica, que flutua por entre os conceitos. Esse dilema entre teoria e consequência, por exemplo, se exprime já na primeira sequência do longa – logo após o dispensável prólogo na Bretanha.

Vejam, a diretora opta por um contexto social específico, de ebulição da população, para semear um conflito. No filme, bem como houve na realidade, estudantes franceses ocupavam ruas, escolas e faculdade para protestar contra a reforma trabalhista proposta pelo presidente Nicolas Sarkozy – reforma essa com uma série de semelhanças à defendida pelo presidente Temer. Antiga revolucionária comunista, Nathalie prefere dar aula. Para ela, mais importante era educar seus alunos sobre o que acontecia naquele exato momento na França. Conceitos iluminista acima da ação imediata.

Mais que uma exploração das tragédias que Nathalie enfrentaria, Mia Hansen-Løve prefere discutir contextos. Limites da filosofia, conformismo burguês, radicalismo juvenil, conservadorismo senil. Há excessos de conceituação e até um irritante “name-dropping” (citação vazia de nomes) que afasta quem não quer uma resposta filosófica, mas há ali mais do que o nada que se indica. “O Que Está Por Vir”, e seu fascinante porvir, é daquelas que se mantém vivas no nosso cérebro mesmo dias depois de ser vista. E isso é tudo que ela pede: disposição para se inquietar.

Cotação: nota 6/8.

Ficha técnica
O Que Está Por Vir
(FRA/ALE, 2016), de Mia Hansen-Løve. Drama. 110 minutos. 12 anos.

Recomendado para você