Cinema às 8

“Belos Sonhos”: o momento que persiste

A mãe (Barbara Ronchi) e Massimo criança (Nicòlo Cabras)

A mãe (Barbara Ronchi) e Massimo criança (Nicòlo Cabras)

Já há anos estabelecido não só como um dos principais diretores do cinema italiano, mas também como um dos melhores, Marco Bellocchio merece sempre uma visita quando oferta uma novidade ao público. “Belos Sonhos”, seu novo longa, é mais um acerto para o diretor de “Vincere” (2009) e “Bom Dia, Noite” (2003), por conseguir catalizar uma ferida marcante na trajetória de seu protagonista e conseguir expor a cicatriz que o persegue por toda a vida.

Com uma introdução leve, bonita, mas revelando segredos sombrios à nesga dos olhos, “Belos Sonhos” é focado na relação de Massimo com sua mãe (Barbara Ronchi). Íntimos, confidentes, os dois só podiam – e seriam – ser separados pela morte. Com uma montagem inventiva, com digressões temporais bem medidas, o filme explora todas as consequências dessa perda na construção do “eu” de Massimo na infância (Nicolò Cabras), adolescência (Dario Dal Pero) e vida adulta (Valerio Mastandrea). Sem falar de perda ou pouco citando a morte, Bellocchio estabelece um luto infindável para um personagem atormentado.

Massimo adolescente (Dario Dal Pero)

Massimo adolescente (Dario Dal Pero)

Um dos fatores mais interessantes do filme, baseado na autobiografia do jornalista e escritor Massimo Gramellini, é o quanto a direção intui informações sobre a morte da mãe para o público, enquanto as mantém escondidas ao protagonista. Sem apelar sempre à muleta de uma modorrenta narração em off, Bellocchio mostra gestos, sombras do que aconteceu na noite em que a mãe desenhos bonitos sonhos ao filho e partiu para outro plano. A fúria do pai, os jornais escondidos, as conversas pela metade, o órfão sem mãe e sem amparo. É, de certa forma, óbvio o que aconteceu, mas Bellocchio resiste ao impulso de narrar.

Apesar de longo, com 134 minutos, “Belos Sonhos” se desdobra com uma sensibilidade marcante. Na fase infantil, a presença do demônio Belfagor (da série “Belphegor – O Fantasma do Louvre “/1965) como solução mágica para os problemas de Massimo mostra o vão da falta da mãe, que o protegia antes da morte. Mais para frente, a relação com o futebol surge como forma de aproximação do pai, mas esconde também uma tragédia. Os dois são fãs do Torino, ex-gigante do futebol italiano, mas que perdeu grande parte da força após todo o time falecer em um acidente de avião em 1949. É mais um tom de sofrimento que ajuda a dar a tônica do protagonista sem ser, de fato, anunciado.

Massimo adulto (Valerio Mastandrea) e  Elisa (Bérénice Bejo)

Massimo adulto (Valerio Mastandrea) e Elisa (Bérénice Bejo)

Entre suas belas sequências e personagens ricas, Bellocchio apresenta diferentes versões do arquétipo clássico da mãe para focar no vão no coração de Massimo. A maltratada mãe do amigo e a cuidadosa médica se confundem com a visão nostálgica do amor do qual ficou órfão. A trajetória como repórter do jornal italiano “La Stampa” também reserva suas coincidências com a própria vida de Massimo. Uma reportagem de guerra que surge da perda de uma mãe, uma grande oportunidade que nasce de um suicídio.

“Belos Sonhos” é sofrido, carregado, e talvez por isso soe cansativo. A riqueza do que ocorre em tela, no entanto, é um respiro. A forma como Massimo se fecha em si pode afastar; a beleza da abertura final, por outro lado, é uma recompensa. Em seu novo longa, Bellocchio se debruça sobre uma dor que não devíamos viver. Não existe nada natural na perda. Na orfandade do amor irrestrito de uma mãe. É belo, amargo, furioso e, acima de tudo, melancólico.

Cotação: nota 6/8.

Ficha Técnica
Belos Sonhos (ITA/FRA, 2016), de Marco Bellocchio. Drama. 134 minutos.

Recomendado para você