Cinema às 8

Os questionamentos da morte em “Um cadáver para sobreviver”

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Se voltasse a vida, quais perguntas um corpo sem consciência de seu passado iria fazer? Como realizaria interações sociais simples, por mais complexas que a suposta simplicidade delas seja? Sua adaptação ao cotidiano seria tranquila? Ele, em sua infinita falta de sabedoria, poderia ajudar um suicida a encontrar seu grande amor? Se estes questionamentos soam estúpidos e sem noção, pode passar longe deste filme. Se decidir por tentar buscar suas respostas, seja bem vindo a uma das maiores viagens do ácido dos últimos anos.

Em uma ilha não identificada na que parece ser a costa dos Estados Unidos, o fracassado Hank (Paul Dano) busca se matar após meses sem conseguir socorro. Quando as ondas do mar trazem o bem vestido cadáver Manny (Daniel Radcliffe em seu papel mais inusitado, sem dúvidas) para a praia, ele irá procurar descobrir mais sobre seu novo companheiro. Aos poucos, o fato de Manny poder falar se torna a coisa menos surpreendente dentre as habilidades do “morto”.

Logo de antemão, é seguro dizer que nenhuma cena de “Um cadáver para sobreviver” faz sentido. Ou, pelo menos, no mundo real. No universo particular da ilha criada por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, os acontecimentos são perfeitamente críveis, após se compreender todo o potencial de Manny. Em inglês, o título original, “Swiss Army Man”, faz referência ao canivete suíço, que possui muitas funcionalidades. Dotado de poderes incompreensíveis, o cadáver flatulento pode funcionar como barco, amigo para todas as horas e até mesmo como a bússola mais perturbadora já concebida.

Dono de uma inocência de quem não conhece absolutamente nada do mundo, Manny questiona Hank a todo instante. E por mais absurdas que sejam suas perguntas, não deixa de ressoar no espectador a dúvida de se elas realmente fazem sentido. “Afinal, se uma coisa me dá prazer, por que devo escondê-la do mundo?”. Bonita, a pergunta logo ganha nova conotação após descobrimos que se trata de um questionamento acerca da masturbação. Muitos outros momentos dúbios ocorrem durante o filme, sempre se mostrando surpreendentemente lógicos.

A ilha do filme, apesar de não contar com nenhum ambiente especialmente marcante, é beneficiada pela bela fotografia de Larkin Seiple. As cores empregadas realçam a vivacidade do local. O destaque está, contudo, em uma cena específica. Durante uma festa com algum tema desconhecido, a sequência de imagens e luzes estrambólicas é capaz de deixar qualquer espectador confuso sobre se de fato está assistindo a um filme, ou preso no sonho mais perturbado de sua vida.

Com apenas duas pessoas em cena durante a maior parte de sua duração, “Um cadáver para sobreviver” conta com performances fortes de seus protagonistas. Após abandonar seus planos de suicídio, Hank logo investe em tentar sair da ilha, mas fazendo crescer a amizade com Manny no processo, os tornando uma das melhores duplas dentre os filmes lançados nesta década. Já Manny possui expressões faciais limitadas pelo rigor mortis, mas Radcliffe é competente em garantir uma personalidade carismática para seu cadáver, rendendo momentos hilários.

Em suma, “Um cadáver para sobreviver” é um filme estranho. Sua narrativa é absurda, todas as cenas são fruto do mais puro LSD, mas todo o conjunto gera um resultado que deixa um sorriso no rosto. Não deve cair no gosto de todos, mas aqueles dispostos a abraçarem a trajetória de Hank e Manny irão encontrar um dos filmes mais únicos dos últimos anos.   

O filme está disponível na Netflix.

Cotação: nota 7/8

Ficha técnica
Um Cadáver Para Sobreviver (EUA, 2016). De Daniel Kwan e Daniel Scheinert. Com Daniel Radcliffe e Paul Dano. 14 anos. 97 minutos.

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