Cinema às 8

“Sieranevada”: cotidiano, banal, hilário

Lary, a mãe (sentada) e a tia (sempre chorando)

Lary, a mãe (sentada) e a tia (sempre chorando)

Sendo sincero, me sinto um velhinho votante no Oscar antes de assistir um filme que ultrapassa os 120 minutos. Quase todos os meus filmes favoritos têm mais de três horas de duração, mas ver aquele “180 minutos” me dá uma preguiça monstra. E esse é, sinceramente, meu sentimento inicial antes de assistir “Sieranevada”, incrível melodrama romeno de Cristi Puiu. Não fosse a aclamação internacional e a recomendação de uma amiga (oi, Camila!), eu talvez teria optado por assistir dois filmes de 1h30min cada.

Eu podia ter fome, frio e me entediar facilmente, mas quando o novo filme de Puiu chega ao seu cenário principal, eu estava à mesa com toda minha família. O sentimento fraternal, as mentiras sem sentido, a histeria descontrolada, as brigas desconexas. Quem nunca viveu um almoço assim na vida? Trabalhado em longos planos-sequência e em charmosos movimentos de câmera dentro de uma casa de quatro quartos apinhada de gente, “Sieranevada” tem uma sinceridade muito própria escondida numa trama de mentirosos.

O cenário principal é a casa de Nusa (Dana Dogaru), matriarca da família. No aniversário de morte de seu marido, Emil, ela recebe seus filhos, irmã, sobrinhos e amigos para uma tradicional (e longa) cerimônia de despedida cristã ortodoxa. Só depois de tudo dar certo, os familiares podem se sentar à mesa e almoçar. Só que o padre atrasa, uma sobrinha traz uma estrangeira desmaiada para casa, o cunhado agressivo ressurge fazendo confusão e o almoço vai sendo adiado.

Quando tudo parece bem, surgem os Tonys (ao centro) da família

Quando tudo parece bem, surgem os Tonys (ao centro) da família

No centro de tudo está o primogênito de Nusa, Lary (Mimi Branescu). Na falta do pai, ele, um médico de 40 e muitos, deveria ser o patriarca da família e impor um pouco de respeito. Ao lado da esposa, porém, ele só queria cumprir as responsabilidade e voltar a vida normal. Como todo bom melodrama, o exagero lhe joga ao centro o tempo inteiro.

A Romênia em eterna crise retratada no filme muito se assemelha ao Brasil. As ditaduras de lá são mais recentes, mas vivas, mas a polarização política de “Sieranevada” é quase gêmeo ao burro embate “petralhas x coxinhas”. Lá, uma avó comunista defende o regime socialista de Nicolae Ceausescu (que foi de 1965 a 1989), enquanto uma filha a dona da casa tenta defender o rei Miguel I. É uma discussão de cegueiras programadas, em que se ignora as semelhantes idiossincrasias entre ambos, tal qual na discussão PT x PSDB.

Toda família devia ter uma vovó comunista

Toda família devia ter uma vovó comunista

A já citada direção de fotografia (de Barbu Balasoiu), aliada a uma direção espetacular de Puiu trazem a tona a banalidade das brigas e o humor das situações esdrúxulas. Com uma mise-en-scène construída com esmero, fica claro que não importa quem sejam os personagens, o conflito vai sempre renascer. E, ali, nos aproximamos de Lary. Como ele, somos voyers daquela dança melodramática e, como ele, vemos o ridículo daquilo tudo.

Como já citei, “Sieranevada”, por sua extensão, é um filme desafiador. Passado quase completamente em um mesmo ambiente e com 173 minutos, ele pode parecer difícil. Mas, no fim das contas, é tudo recompensador. As horas se dobram em risos e a profundidade dramática surge no momento certo, já no terceiro ato. Para além de tudo, “Sieranevada” me lembra que “O Poderoso Chefão”, “Magnólia”, “Era uma vez na América” têm suas três horas e nunca me intimidaram.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 7/8

Ficha Técnica
Sieranevada
(ROM/FRA/BOS/CRO/MAC, 2016), de Cristi Puiu. Dramédia. 173 minutos.

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