Cinema às 8

“É Apenas o Fim do Mundo”: autoindulgência e tédio

Gaspard Ulliel segue meu crush, pelo menos

Gaspard Ulliel segue meu crush, pelo menos

Vez por outra, seduzidos pela juventude do cineasta, críticos já jogam o nome do franco-canadense Xavier Dolan na lista de promessas. Aos 26, ele tem, de fato, um currículo invejável. Mas no seu sexto crédito como diretor, já houve tempo de separar joio e trigo. “É Apenas o Fim do Mundo” é mais uma mostra do quanto o “talentoso e promissor” Dolan repete os mesmos erros a cada obra nova.

O que chama a atenção em Dolan desde 2009, ano da estreia do cineasta com “Eu Matei Minha Mãe”, é a sinceridade com que a violência é exposta. Ali, parecia uma vivacidade de sentimentos. Com o tempo, porém, fica cada vez mais evidente que apenas o rubro da ira transparece no matiz de cores do franco-canadense. Em sua fórmula, que já deveria ter maturado o suficiente, as ondas de calmaria e fúria se comutam em uma espécie de inspiração e expiração.

Assim, conhecemos Louis (Gaspard Ulliel), um brilhante escritor, vítima de uma doença terminal e que resolve encontrar a família após 12 anos longe. A ideia era contar a verdade e se despedir, mas a visita vira um jogo de vítima e culpa no reencontro com os irmãos, Antoine (Vincent Cassel) e Suzanne (Léa Seydoux) e a mãe (Nathalie Baye).

Prefiro poupar Marion Coutillard de uma menção no texto

Prefiro poupar Marion Coutillard de uma menção no texto. Já Cassel, grita, como sempre

Já na estrutura da narrativa, se evidencia a forma forçada com quem a profundidade do protagonista é imposta. Uma narração em off, dentro de um avião, explica os motivos da visita. Talvez soe como spoiler, mas, para mim, isso já evidencia o final da trama. Incapaz de mostrar nuances nos personagens, Dolan aposta em longos planos-detalhe para tentar mostra algum diálogo interno, uma profundidade que nunca chega. A isso, se contrapõe diálogos repetitivos de Louis com seus familiares. A estrutura é sempre a mesma, com o protagonista calado, o parente inicialmente amoroso e depois uma raiva ancestral surgindo e virando uma espécie de briga.

Os diálogos soam derivados diretamente de um melodrama. Mas “É Apenas o Fim do Mundo” não funciona como melodrama. Não é nem pela falta de humor (ele até constrange quando tenta fazer rir), mas pela falta de um trato sutil dos personagens. São todos uma casca de rancor reprimido – com exceção de Antoine, que prefere reprimir o amor e evidenciar a raiva. Sem qualquer sutileza, Dolan também solta flashbacks pouco efetivos, que mostram momentos de felicidade de Louis junto ao irmão ou a um antigo amante. Aliás, a cena de sexo do jovem Louis com um ex-namorado soa como puro fan service, já que cumpre função nula no roteiro.

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E se dessa vez, ao contrário de “Mommy” (2014), o diretor não pesa a mão na trucagem da fotografia, ele aposta em uma paleta de cores das menos sutis. Tudo vai ficando mais vermelho, rubro da fúria, do calor, da intensidade. É o signo de Dolan, depois de tudo. Nem a trilha musical salva esse trem descarrilhado. É óbvia, clichê, ilustrativa – além de bem ruim.

O lado bom de tudo é que Dolan ainda é jovem. Ainda pode acertar. O preocupante é que, aos 26, ele já tem um cinema recheado de referências ao próprio fazer. Autorreferente, até autoindulgente. Caso ele seja capaz de dar uns cinco passos atrás, caminhar antes de correr, ele pode dar voz a outros sentimentos que não a raiva. Pode criar algo novo e que mereça ser visto. Do contrário, ele se provará um talento desperdiçado. Tanto quanto o elenco que angariou para “É Apenas o Fim do Mundo”

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 2/8

Ficha técnica
É Apenas o Fim do Mundo (Juste la Fin du Monde, CAN/FRA, 2016), de Xavier Dolan. Drama. 107 minutos. Com Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard e Léa Seydoux.

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