Cinema às 8

“Estrelas Além do Tempo”: justiça, ainda que poética

Mary (Janelle Monáe), Katherine (Taraji P. Henson) e Dorothy (Octavia Spencer)

Mary (Janelle Monáe), Katherine (Taraji P. Henson) e Dorothy (Octavia Spencer)

Centro de Pesquisa de Langley, em Hampton, Virginia (EUA), 1961. Enquanto a Guerra Fria se acirrava, a corrida espacial surgia como uma frente de batalha. Rússia e Estados Unidos tentavam pôr cosmo ou astronautas em órbita como forma de comprovar a maior eficácia de seus modelos do poder, por assim dizer. Paralelamente, o país símbolo do capitalismo no mundo ainda engatinhava rumo aos direitos civis à população negra, que só adquiriria direito ao voto em 1965. Mais de meio século depois e a maioria dessa população continua invisível, assim como a história de quem, lá na década de 1960, lutava para conseguir o básico para se viver.

Dentro desse contexto denso, mesmo dentro da Nasa, surgiram Katherine, Dorothy e Mary, figuras reais, históricas, definitivas para o programa espacial norte-americano. E apagadas da história por sua cor e sexo. “Estrelas Além do Tempo”, de Theodore Melfi, tenta amenizar a injustiça histórica. No longa, baseado no romance biográfico “Hidden Figures”, de Margot Lee Shetterly, Katherine (Taraji P. Henson), Dorothy (Octavia Spencer) e Mary (Janelle Monáe) trabalham como “computadores” em uma ala do Centro de Pesquisa de Langley – ambiente dominado por homens brancos, o completo oposto delas.

Janelle Monáe foi a feliz surpresa do longa

Janelle Monáe foi a feliz surpresa do longa

Por mais que na época não houvesse essa carga, hoje, o termo “computador” serve para designar um objeto, o que denota certa “coisificação” das personagens. O mais interessante de “Estrelas Além do Tempo” é como a introdução conjunta (e hilária) das três protagonistas se desmembra em histórias únicas de imposição de uma minoria. Katherine, matemática brilhante, é convidada para trabalhar ao lado de Al Harrison (Kevin Costner), chefão do grupo de projetos espaciais de Langley. Aliás, não bem ao lado – abaixo, bem abaixo, ajudando a pensar cálculos de trajetórias, janelas de lançamento e caminhos de regresso para os voos do programa espacial. Paralelamente, Dorothy, que galgava uma promoção a supervisora, não se intimida com a competição de um novo computador IBM e tenta investir em sua formação. Já Mary tem o talento como engenheira reconhecido, mas para ser uma profissional de fato precisaria fazer um curso em uma escola exclusiva para homens – brancos, claro.

Diante de tantas subtramas, “Estrelas Além do Tempo” podia se perder ao tentar conectar tantos pontos. Ao mesmo tempo, havia o risco da “síndrome de “Histórias Cruzadas” (2011), filme sobre segregação que foca mais na população branca do que na negra. Felizmente, “Estrelas…” desvia disso tudo. A subtrama de Dorothy vez por outra cai no novelesco, mas como um todo, o longa investe em humor e drama social de forma tranquila e equilibrada. Diante do tecido histórico presente ali, é admirável a capacidade do roteiro de fazer rir, seja no pastelão, seja na ironia.

O exército de "computadores" da Nasa

O exército de “computadores” da Nasa

O mais importante nas três histórias é que Katherine, Dorothy e Mary nunca deixam de protagonizar suas histórias. Não há condescendência dos chefes; há reconhecimento dos méritos. A união entre as três, bem como as outras mulheres negras do longa, é a grande demonstração de força da história. Há, claro, excessos. A trilha musical, em especial, parece por vezes fora do tom, servindo de transição entre as subtramas e tentando imprimir a personalidade combativa do trio. Há também um ufanismo norte-americano recorrente, que acaba descambando em algo meio novelesco. Dorothy puxando um exército de “computadores” em determinada sequência, Al Harrison derrubando certa placa, o carisma desmedido do coronal Alan Shepard (Dane Davenport). Por mais que seja verdade, soa falso.

Adaptação importante e, melhor que isso, boa, “Estrelas Além do Tempo” não faz justiça às suas três protagonistas. Mas não por falta de méritos do filme. Quem podia ter feito justiça às três era a sociedade norte-americana da época, que preferiu ignorar o papel fundamental de três mulheres negras para que um homem chegasse ao espaço dentro de uma lata metálica cheia de explosivos. O longa de Theodore Melfi, no entanto, ajuda a trazer uma espécie de justiça histórica. Uma compensação poética de quem merecia láureas enquanto realizava seus feitos.

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
Estrelas Além do Tempo
(Hidden Figures, EUA, 2016). Drama histórico. 127 minutos. Livre.

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