Cinema às 8

Cinema independente está interessado em debater diversidade, diz diretora do documentário Close

As meninas do documentário Close, de Rosane Gurgel, que estreia nesta segunda no Cinema do Dragão (Foto: Divulgação)

As meninas do documentário Close, de Rosane Gurgel, que estreia nesta segunda no Cinema do Dragão (Foto: Divulgação)

Close, no vocabulário delas, é tudo aquilo que é perfeito. É o que diz uma das internas da Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes, no documentário “Close”, da jornalista e cineasta cearense Rosane Gurgel. Situado em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, o presídio é destinado aos presos GBT (gays, bissexuais e travestis), idosos, deficientes físicos e condenados pela Lei Maria da Penha. Mas o que há de perfeito na prisão?

O recorte desse universo escolhido por Rosane será exibido hoje, 30 de janeiro, no Cinema do Dragão – Fundação Joaquim Nabuco. Em comemoração ao Dia da Visibilidade Trans, o curta-metragem estreia às 18 horas com entrada gratuita.

Debater os direitos LGBT é importante, inclusive para quem está recluso no sistema penal. A jornalista lembra que pessoas como Jéssica, Suyanne, Bruna e Nathália, as personagens retratadas no documentário, são as mais vulneráveis da população prisional.

Preconceito, vaidade, amor e universo carcerário são apenas alguns dos temas que o filme levanta. Mas um dos mais importantes talvez seja o simples ato de promover a visibilidade que o assunto exige. Visibilidade essa ainda pequena no cinema comercial, pelo menos é o que acredita a cineasta. “No cinema independente vejo que os diretores estão se interessando mais em debater as questões vinculadas a diversidade sexual, de gênero, e aos direitos para combater à violência contra mulheres e a comunidade LGBT”, avalia.

Rosane Gurgel conta que, desde o início, a ideia era trabalhar com quatro personagens. A escolha começou na Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor José Jucá Neto (CPPL III), em Itaitinga, onde elas estavam antes de serem transferidas para a Unidade Irmã Imelda. Lá, ela conheceu sete internas travestis que produziam o fanzine “Só Babado”. Dessas, quatro foram escolhidas, mas a personagem principal desistiu do documentário. Ela foi transferida para outro presídio, onde estava também o parceiro.

Curta aborda conquistas e desafios das transexuais no sistema prisional cearense (Foto: Divulgação)

Curta aborda conquistas e desafios das transexuais no sistema prisional cearense (Foto: Divulgação)

“Depois das rebeliões, ajeitaram o antigo Presídio Militar e fizeram a Unidade Prisional Irmã Imelda Lima Pontes. Lá, conheci a Suyanne (seu nome artístico é Linda Moura)”, lembra. Para a jornalista, bastava que suas personagens tivessem, de alguma forma, a vontade de ser ouvida. Também pesou como critério a história de vida fora da prisão e pelo motivo de estarem presas. “Muitas se sentiam ‘apagadas’, invisíveis dentro da sociedade”.

“O projeto durou mais tempo por conta da crise penitenciária. Por conta das rebeliões ficamos impossibilitadas de entrar dentro das unidades para realizar as filmagens”, relata Rosane. “O horário era um pouco complicado porque tínhamos que terminar até no máximo meio dia por conta do horário de almoço dos internos”, revela sobre as duas manhãs de gravações, sempre respeitando a rotina dos apenados. Ao todo, o processo de produção levou cinco meses.

Conquista

Para a jornalista, a Unidade Prisional Irmã Imelda é uma “grande conquista” não só para o público GBT, mas também para os outros internos de vulnerabilidade dentro do sistema penal. “Acredito que elas se sentem mais fortes em conquistar seus direitos sabendo da situação de vulnerabilidade em que vivem dentro dos presídios”, afirma. Estaria aí talvez a perfeição. No triunfo.

Mas continuar a pesquisa dentro do meio LGBT ainda é algo incerto para Rosane. Quem sabe no futuro, quando o sistema carcerário cearense fornecer uma “unidade voltada para o transexual masculino”, exemplifica. Até lá, a curiosidade vai guiar a jornalista. Ou o incômodo.

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