Cinema às 8

“King Cobra”: vulgar sem ser sexy

Ao centro, Brent Corrigan, heterônimo de Sean Paul Lockhart (Garrett Clayton)

Poucas vezes na história, o pornô gay rendeu manchete. A principal exceção a essa regra, ao que parece, é o chamado “caso Brent Corrigan”. Sexo, amor, traição, acusação de pedofilia e um assassinato se encadearam em uma história que começou em vídeos eróticos e terminou no tribunal. Disponível na Netflix, “King Cobra”, de Justin Kelly, é um resumo da ópera. Nele, o produtor pornô Stephen (Christian Slater) contrata o jovem Sean Paul Lockhart (Garrett Clayton) para começar uma nova vida como astro de vídeos de sexo. A fama cresce, a relação piora, o sucesso desperta inveja de outros e a trama desemboca num dos mais famosos da indústria pornográfica na história.

Tudo em “King Cobra” é construído para gerar curiosidade — o elenco em especial. Galã nos anos 1980 e 90, Christian Slater empresta seu charme a um personagem normalmente retratado como repugnante. Só que as ações de Stephen (alter-ego ficcional de Bryan Kocis) são, de fato, repugnantes. A atração por rapazes jovens, o relacionamento com o adolescente Sean Paul Lockhart, as sacanagens financeiras parecem comuns no meio, mas são extrapoladas no personagem. Slater, no entanto, segura bem o personagem ao mostrar nuances de insegurança na interpretação de alguém que é bem mais frágil que parece.

A fragilidade de Stephen (Christian Slater) é dos únicos pontos positivos do filme

Já Garrett Clayton aposta todas as suas fichas na inocência. Só a escalação do garoto já indicava esse caminho, já que o rapaz advém de filmes e seriados da Disney para pré-adolescentes. A falta de malícia de Lockhart, no entanto, é tão convincente como o conteúdo sexual da obra. É tudo pasteurizado, aliviado de forma a “chocar” menos. A mera revelação de uma bunda masculina é tratada como um fetiche — mas é uma bobagem em uma obra que se passa em meio a sets de pornô homossexual.

Além dos dois, há uma presença completamente fora do tom de James Franco como Joe, dono de um serviço de escolta sexual, mas que se pretende produtor pornô. Parece que o ator, que também produz a obra, quer apenas uma desculpa para se mostrar aberto a papeis e filmes ousados. Um assassino homossexual e com uma complexa relação abusiva com o namorado parece ter a profundidade necessária. Mas no longa, o núcleo todo é completamente dispensável e reforça outro estereótipo ofensivo para a indústria pornográfica gay.

Harlow (Keegan Allen) e Joe (James Franco), os “vilões” da história

Por ser baseado em fatos reais, a estrutura de suspense fica também capenga. É como se “King Cobra” se esforçasse para surpreender, mas as curvas em sua trama fossem todas conhecidas. Fica como um thriller sexual com pouco suspense e ainda menos sexo. Ou seja, uma desculpa esfarrapada para se criticar de forma superficial a indústria pornô (gay).

Cotação: nota 3/8

Ficha técnica
King Cobra
(EUA, 2016), de Justin Kelly. Drama/Crime. 91 minutos.

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