Cinema às 8

Guerras, monstros gigantes e “Kong: A Ilha da Caveira”

Helicópteros, o sol, soldados na água… Catou a referência?

Há de se admirar a criatividade humana. Quem, em sã consciência, achou que “Kong: A Ilha da Caveira” era uma possibilidade de refilmagem de “Apocalypse Now” (1979), candidato a melhor filme de guerra da história? Estreante em megaproduções, Jordan Vogt-Roberts (do divertido “Os Reis do Verão”/2013) apostou na estranha combinação. E, contra todas as probabilidades, criou um sério candidato a melhor superprodução de 2017.

Helicópteros partindo rumo ao sol, napalm queimando pela manhã, um militar de alta patente com tendências homicidas, um barco cheio de soldados subindo um rio, o contexto da guerra do Vietam, com seus veteranos viciados em batalhas. Adicione-se um gorila bombado de 30 metros e kaijus (japonês para “feras estranhas”) e a fórmula de “Apocalypse Now” se transforma em “Kong”. As semelhanças, no entanto, não param aí. Tanto um como o outro, mostram forças imensas se digladiando em um terreno quase inóspito enquanto os moradores locais ignoram o que ocorre. No clássico de Francis Ford Coppola, EUA e Rússia investiam na Guerra Fria em território vitnamita; no filme de monstro de Vogt-Roberts, Kong, militares americanos e bestas do centro da Terra se enfrentam, enquanto civis e moradores da ilha da Caveira podem apenas assistir.

Tudo é enorme e exagerado em “Kong”

Em essência, “Kong” é um filme de guerra calculado nas mínimas referências. Mais do que uma aventura na selva, o longa traz características imbricadas na memória do público cinéfilo. Conceitos básicos anti-belicistas, a irmandade entre os soldados, sacrifícios morais, sobreviventes improváveis, tudo isso faz parte do ethos do cinema de guerra e se traduz, de uma forma ou de outra, em “Kong”. Ao mesmo tempo, fiel às origens do personagem, o longa traz uma bela donzela loura, uma herói de caráter duvidoso e uma série de cientistas e soldados na longínqua ilha da caveira, onde eles se chocam e se maravilham com o rei do local: o gorilão Kong.

Claro, diante de tantos elogios, vale lembrar. “Kong” ainda está longe de ser um “Apocalypse Now”. Os personagens humanos têm pouca profundidade e os atores apostam na canastrice na atuação. A jornalista Mason Weaver (Brie Larson) é a melhor adição, quebrando o estigma de donzela em perigo em grande estilo, mas o mercenário James Conrad (Tom Hiddleston) pouco adiciona além de um belo sorriso. John Goodman funciona como um remake de seu personagem em “Rua Cloverfield, 10” e Samuel L. Jackson empalideceria diante da presença de Marlon Brando — mas nada que comprometa. John C. Reilly é um alívio cômico eficiente em um elenco equilibrado, mas irrelevante. Afinal, tudo que importa é Kong (e Brie Larson).

Última chance de catar a referência. Taí, mas “Apocalypse Now” só se tivesse o Marlon Brando escondido atrás de uma sombra

Vitaminado para encontrar Godzilla no futuro, o gorilão é ameaçador e fascinante na medida certa. Não há nenhuma tentativa de escondê-lo, guardar o melhor para o fim. Desde a sequência inicial, a força de Kong é estabelecida. As motivações dele, dos cientistas e dos militares é que são o coelho na cartola do roteiro criado por John Gatins. Além dele, as outras criaturas (conhecidas como kaiju) têm um design curioso. Aranhas, com pernas que se confundem com bambus, lagartos de duas pernas que surgem do nada e pacíficos búfalos gigantes parecem um ecossistema que até faria sentido, levando-se em consideração as proporções gigantes em questão.

Grandioso e exagerado como todo filme de monstro deve ser, “Kong” é uma surpresa por se levar a sério e saber rir de si mesmo. Nada é na medida, mas isso pouco importa. Quando vemos um filme de gorilas gigantes, o que nós menos queremos é que acertem na quantidade de exagero.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8

Ficha Técnica
Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, EUA, 2017), de Jon Vogt-Roberts. Ação/Drama. 118 minutos. 14 anos. Com Brie Larson, Tom Hiddleston e Samuel L. Jackson.

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