Cinema às 8

“A Tartaruga Vermelha”: animação contemplativa

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Spoiler: o casal de protagonistas

Longe de ser um gênero, animação é uma amor expresso em traços. Extremamente trabalhoso e com um escopo amplo e únicos, os filmes animados podem verter para qualquer corrente que se puxe. A regra atual costuma pender para a comédia com traços dramáticos, uma fórmula imortalizada pela Pixar. Hoje em dia, as princesas Disney correm se jogam na ação, na aventura, enquanto os clássicos tendiam mais ao romance. No Japão, há uma tradição de ficção científica e outra de drama mitológico. E, apesar de ser dirigido pelo holandês Michael Dudok de Wit, a co-produção França/Bélgica/Holanda “A Tartaruga Vermelha, mistura a narrativa mítica com as nuances dramáticas em um caminho bem próprio de Hayao Myiazaki e Isao Takahata, mestres do Studio Ghibli.

Não obstante, Takahata assina a produção artística do filme, co-produzido pelo próprio Ghibli. “A Tartaruga Vermelha” soa quase como um curta, estendido por um tempo poético. Sem falas e com uma arte que parece entre o traço mutante do japonês Takahata com o visual clássico do “Tintin” do belga Hergé, a animação impressiona pela vivacidade do terreno proposto. A história, com uns toques de “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift, e outros de “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, acompanha um náufrago preso a uma ilha. Após sucessivas tentativas de fuga em um bote improvisado, ele descobre que uma tartaruga-gigante de casco vermelho estava impedindo sua viagem de resgate. Enfurecido, ele ataca e vira o animal na areia, que não consegue voltar para o mar. Tocado pela culpa, ele resolve cuidar da tartaruga, que amanhece como uma bela moça.

A solidão é tema corrente na animação. O visual é a força da obra

O aspecto fantástico da trama parece tirado diretamente de uma animação japonesa. A moça que se transmuta em tartaruga (ou o contrário) é um limiar que parece próprio de obras nipônicas, ainda que se trate de um roteiro original do holandês de Wit. Sem falas e só povoado por sussurros, o filme ganha um caráter ainda mais universal. Não é a história de um povo, mas uma trama de sentimentos que crescem, bem como as belezas da ilha. “A Tartaruga Vermelha” pode não ter um roteiro 100% acessível. O lado bom é que se abrem interpretações ricas, que se encaixam no sentimento pessoal do espectador.

O náufrago, por exemplo, pode ser alguém que tenta escapar das próprias responsabilidades. Tenta se prender a uma rotina mecânica e fugir de uma liberdade opressiva. Ao mesmo tempo, a Tartaruga soa como uma metáfora de forma como o humano, destrutivo, se conecta com a natureza, que pode até ser vingativa. Para além dos pormenores, “A Tartaruga Vermelha” é uma obra que envelopa mais que uma mensagem – há todo um abraço visual envolvido. O design de produção, aliás, é de uma inteligência sensível, ao expor cores saturadas no dia, na resistência e sobrevivência diária, e tirar todas as cores à noite, quando o náufrago se conecta aos sonhos de fuga e tentativas de repouso.

O contato íntimo com a natureza é tratado de forma quase metafórica

De tempos largos e desenrolar lento, “A Tartaruga Vermelha” propõe um tipo diferente de reflexão das animações massivas de hoje. É o oposto de um “Lego: O Filme”, que se impõe em ação frenética e diálogos sem reflexão. A animação franco-belga-nipônica acaba propondo um percurso interno, que se interpõe a uma trama completamente aberta para interpretações.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
A Tartaruga Vermelha (La Tortue Rouge, FRA/BEL/JAP, 2016), de Michael Dudok de Wit. Animação/Drama. 81 minutos. Livre.

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