Cinema às 8

“13 Reasons Why”: microfraturas sociais e romantização do suicídio

Esse texto contém spoilers dos últimos episódios da primeira temporada da série. Leia por sua conta e risco

Clay (Dylan Minnette) é o protagonista da série. Não Hannah Baker

A narrativa seriada só pode ser discutida por completo. Se eu fosse escrever sobre a série exclusiva da Netflix “13 Reasons Why” após assistir cinco, seis episódios, eu louvaria a boa direção, ancorada em uma estrutura narrativa inteligente, mas criticaria o roteiro, que capenga nas relações interpessoais que ancoram a trama. Só que, após o desastroso 13º episódios, é quase impossível ignorar a romantização do suicídio. Mais do que advertir sobre as fraturas sociais que levam um jovem a tirar a própria vida, a série parece ensinar um manual sádico para como se suicidar.

Mostrar ou não mostrar. Esse é o dilema essencial. Uma obra não tem os mesmos significados para autores e público. Assim, Brian Yorkey pode ter partido de uma boa intenção ao adaptar o romance de Jay Asher, lançado no Brasil como “Os Treze Porquês”. Assim sendo, cada pessoa toma posse daquilo que vê. Cito sempre Truffaut, que se recusava a registrar a guerra da Argélia em filme porque levar algo ao cinema é glorificar esse fato. Cabe ao público a interpretação, assim, mesmo o filme mais antibelicista pode ser entendido como pró-guerras.

A sra. Baker (Kate Walsh) e a filha, Hannah (Katherine Langford)

Ainda que o roteiro estenda a história inutilmente e que a louvável estrutura narrativa dos primeiros episódios se perca aos poucos, “13 Reasons Why” põe o holofote em um tema essencial, que precisa ser discutido. O suicídio adolescente é algo endêmico, fruto de uma sociedade que joga jovens adolescentes uns contra os outros. O cenário do Ensino Médio norte-americano e o machismo da sociedade ocidental impõe algumas novas camadas que, ainda que soem clichês, são expostas de forma plausível. Existem subtramas fortes, como o bullying ignorado contra Tyler (Devin Druid) e a forma como garotos fazem garotas ficarem contra si. Só que existe Hannah (Katherine Langford). E só que decidiram filmar o suicídio.

Música lenta, cena dolorosa, violência gráfica. Ali, Hannah é uma heroína romântica. Depois de ser pintada como donzela a espera de salvação, ela não tem outra opção. A série, explicitamente, decide filmar uma adolescente se suicidando. Parece um manual de como outras Hannahs podem fazer. Isso escancara que “13 Reasons Why” não é uma série para jovens em depressão, isolados, que cogitam suicídio. É uma série para as pessoas que se identificam com Alex (Miler Heizer), Justin (Brandon Flynn), Zach (Ross Butler), Jess (Alisha Boe), Sheri (Ajiona Alexus), Marcus (Steven Silver) ou Cortney (Michele Selene Ang). O que, aliás, é extremamente importante. Mas esquecem de como assistir a morte de Hannah pode ter um impacto em crianças como Hannah.

O drama de Tyler (Devin Druid) é um dos acertos da trama

“13 Reasons Why” é uma série com méritos sociais e com um timing importante. É bem dirigida, usa truques inteligentes no design de produção, como incluir um ferimento na testa de Clay (Dylan Minnette) no presente, para facilitar a leitura de digressões de tempo. Mas a série não parece se dar conta de que existe um limite, por mais que os gatilhos de suicídio e estupro sejam alardeados no início de episódios mais tensos. Os minutos finais, a idealização das atitudes de Hannah com alguns colegas, o suicídio em si, são algo que não deveria ser abordado.

Uma obra é toda sua unidade, não suas partes em separado. Um filme não se julga só por seus méritos, por um primeiro ato genial ou um plot twist bem encaixado. Tampouco uma série é apenas a soma de erros e acertos. Existe um juízo de valor intrínseco nisso. Em “13 Reasons Why”, os problemas são escancarados nos dois episódios finais, o que começa uma onda que desqualifica todo o resto. Infelizmente, as questões femininas exposta ali perdem a força. A força das microagressões são engolidas. As personalidades complexas, a fuga do maniqueísmo com os 13 “vilões” é eclipsada. “13 Reasons Why”, em seu ápice, parece querer ousar para tirar as séries da Netflix do mesmo mar de mediocridade. E erra epicamente.

(andrebloc@opovo.com.br)

Ficha Técnica

13 Reasons Why (EUA, 2017), de Brian Yorkley. Drama. 13 episódios. 58 minutos (cada). Com Dylan Minnette, Katherine Langford e Christian Navarro.

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