Cinema às 8

“Alien: Covenant”: o auge do humano

144 1

Mesmo hoje, “Alien: o Oitavo Passageiro” (1979), de Ridley Scott, se mantém como uma das obras mais impactantes da história. Para além de ter o herói de ação mais completo do cinema, a tenente Ellen Ripley, a ficção científica de horror cria uma atmosfera única, uma criatura grotesca e assustadora e tem uma das direções mais seguras e inventivas dentro do gênero. Lá, Scott sabe dosar perfeitamente o que mostrar e o que esconder, com uma câmera subjetiva usada com perfeição em um esforço de horror único. É a grande obra de um diretor tão genial quanto irregular.

Walter (Michael Fassbender), versão atualizada de David

“Alien: Covenant”, sexto filme da série solo dos ‘xenomorfos’, é uma declaração de amor de Ridley Scott para o ato de criar. Depois das quatro obras originais, de 1979, 1986, 1992 e 1997 e dois spin-offs, o diretor da obra original retomou as rédeas da franquia no decepcionante “Prometheus” (2012), do qual “Covenant” é sequência direta. Já em 2012, os novos elementos giravam em torno da origem das criaturas assassinas conhecidas como xenomorfos. Lá, se introduz um mito da criação, em que seres quase divinos criam um vírus mutante e superpoderoso, que dizima civilizações como uma epidemia. Ao final do longa, a doutora Shaw (Noomi Rapace), espécie de novo avatar de Ripley, e o maquiavélico androide David (Michael Fassbender) são os únicos tripulantes da nave Prometheus que sobrevivem ao encontro com as criaturas.

Dez anos depois e é a vez da nave colonizadora Covenant ter um encontro cruel com o destino. Resumindo a enfadonha introdução em poucas linhas, a tripulação descobre um sinal misterioso em um planeta nunca antes explorado e descobre se tratar de um local perfeito para a vida humana. Capitão recém empossado, Oram (Billy Crudup) decide explorar o planeta, à revelia dos desejos da sub-comandante Daniels (Katherine Waterston), a Ripley da vez. Descendo lá, começa a infecção, matança e caixas torácicas explodindo no melhor estilo “Alien”. Assim vai até um rosto familiar os salvar dos neoxenomorfos.

Um xenomorfo sempre necessita de um corpo orgânica para nascer

David, o androide com complexo de Messias, ressurge e encontra Walter, seu irmão gêmeo robótico com diretrizes menos niilistas. “Prometheus” era grandiloquente, excessivo, ambicioso. Só David, com seus ideais de perfeição, tornava o filme interessante. “Covenant” aproveita essa qualidade do antecessor e resolve explorar mais a fundo a proposta, fincado em especial nos duelos intelectuais dos dois androides. Antagonista clássico, David se configura praticamente como o protagonista do filme. É ele quem puxa os conflitos e é até nele que se centra o prólogo do longa.

O cerne de “Alien: Covenant” segue sendo a noção de ápice da história natural. Na introdução de “Prometheus”, temos um ser praticamente divino que abdica da existência em um ritual cruel de destruição – algo que, aliás, até hoje faz pouco sentido pra mim. David, dessa vez, é apresentado como o auge da humanidade. Um ser que beira a perfeição, tal qual o Davi de Michelangelo. Com sentimentos e volatilidade típicas de um homem – e uma tendência pouco sadia à eugenia -, ele acaba julgando que, agora, é a vez de criar um ser ainda mais perfeito: os xenomorfos, cada vez mais parecidos à visão clássica do filme de 1979, com design de H.R. Giger.

Daniels (Katherine Waterson), a Ripley da vez

O humano sempre busca algo maior, um feito mais grandioso, mas segue com os mesmos erros, perseguindo os mesmos êxitos passados. É assim com Ridley Scott, que busca recriar a mágica de “Alien, o Oitavo Passageiro”, seu apogeu. Por mais que “Covenant” seja interessante e melhor do que três dos outros cinco outros filmes da franquia, ele nunca supera a barreira do reproduzível. David é fascinado ao máximo pelo xenomorfo, que ajudou a criar. Do mesmo modo é Ridley Scott, que se dedica a criar e recriar a mesma obra. Ele muda os elementos, esquece o terror psicológico e o exercício de gênero e substitui por filosofia de botequim, mas segue aguardando pelos mesmos resultados. Se muito, “Covenant” funciona. Pode agradar ao fã da série e ampliar o escopo proposto. Mas Scott precisa urgentemente de distanciamento para ganhar mais perspectiva sobre o seu Frankenstein. Talvez involuntariamente, Ridley Scott acabou fazendo uma grande metáfora para o próprio processo criativo estanque em que se encontra.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 5/8.

Ficha técnica
Alien: Covenant (EUA, 2017), de Ridley Scott.

Recomendado para você