Cinema às 8

“Silêncio”: quando a resposta nos vem muda

Rodrigues (Andrew Garfield) e Mokichi (Shin’ya Tsukamoto)

Existem diversas dimensões no trabalho da Companhia de Jesus no século XVII. Ferramenta de propagação da fé, os jesuítas eram também braço armado do papa e uma estratégia de expansão mercantilista. Uma religião única era forma de se domar interesses. “Silêncio”, nova obra de Martin Scorsese, é mais que um épico de fé, é um encontro filosófico de formas antagônicas de se encarar o mundo. As visões podem ser mutuamente excludentes, mas isso não significa que uma ou outra esteja certa (ou errada).

Ambicioso como só Scorsese seria capaz (e merecedor), a longa mostra os respiros finais da missão jesuíta no Japão. Após converter mais de 300 mil locais em “kirishtan” (como os japoneses chamavam os seguidores da fé católica), padres jesuítas portugueses foram perseguidos, torturados e mortos. Nesse contexto, Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) são enviados à região de Nagasaki para buscar Ferreira (Liam Neeson), seu mentor, principal propagador da fé no Oriente e que supostamente teria cometido apostasia (renúncia da fé). Lá, eles entram em contato com miséria, devoção e sofrimento em níveis que nunca imaginariam.

Padre Ferreira (Liam Neeson)

O centro da trama são os dilemas morais e filosóficos enfrentados por Rodrigues. Em uma jornada épica religiosa comparável ao Novo Testamento da Bíblia, o padre se vê semeando uma fé em uma terra de pântano — e a direção de arte é genial ao impor um Japão claramente inóspito. Melhor que isso, porém, é como “Silêncio” não se furta em mostrar que o outro lado também tem seus dilemas. Era fácil apresentar o “Inquisitor” Inoue (Issei Ogata) como um assassino sanguinário. A obra, porém, se assenta mais em alguém com uma missão tão sacra quanto ao dos jesuítas. O próprio apelido do governador da região revela o papel hipócrita da Igreja Apostólica Romana no Japão. Lá, eles eram perseguidos por um “inquisitor”, enquanto na Espanha — vizinha de Portugal — ela promovia a sangrenta Inquisição Espanhola.

O roteiro de Jay Cocks e Martin Scorsese, baseado no romance de Shûsaku Endô (e que já foi adaptado em 1971 por Masahiro Shinoda, em “Chinmoku”), estabelece, então, uma batalha muito mais filosófica do que física. Para Rodrigues, os limites da fé são testados, enquanto as preces demandam resposta. Para Inoue, o dilema é como acabar com uma fé que ganha força a partir de mártires? Se um cristão renuncia da própria vida em nome da fé, ele é recompensado com o Paraíso e a fé inspira o nascimento de novos cristãos.

O perdão é tema frequente entre Rodrigues e Kichijiro (Yôsuke Kubozuka)

A relação mais forte, que revela mais sobre a fé de Rodrigues, é a com o guia japonês, o sôfrego e trágico Kichijiro (Yôsuke Kubozuka). É nele que se instala um paradoxo para a fé que se fia no perdão. Note-se como todos os aspectos filosóficos da mitologia cristã se instalam em “Silêncio”. Há o autossacrifício, a abnegação, a crença na salvação e na ressurreição, o perdão e a culpa, todos esmiuçados com uma delicadeza de quem dá primazia ao sentimento. Ao mesmo tempo, Scorsese volta ao principal dilema da fé, aquele do qual nem Jesus Cristo conseguiu fugir — como o próprio diretor mostrou em “A Última Tentação de Cristo” (1988) —, onde está Deus quando precisamos Dele? “Ó, Pai, por que me abandonaste?”

Com 161 minutos de duração, “Silêncio” pode soar arrastado — ainda mais na repetição de cenas de tortura física e psicológica que a obra apresenta. Mas existe uma dimensão além, um plano intangível que o filme apresenta de forma invisível. Há uma voz que não se ouve e que Scorsese intui no papel de Andrew Garfield. Mais do que ouvir as palavras e metáforas que o filme apresenta, o longa mostra que, tanto quanto ouvir sons, precisamos aprender a ouvir silêncios.

Cotação: nota 7/8

Ficha Técnica
Silêncio
(Silence, EUA/TAIWAN/MEX, 2016), de Martin Scorsese. Drama. 161 minutos. 16 anos. Com Andrew Garfield, Adam Driver e Liam Neeson.

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