Cinema às 8

“Ao Cair da Noite”: o medo como maior inimigo do homem

Massivamente anunciado como um filme de terror,  “Ao Cair da Noite” recebeu críticas do público pela falta de sustos e de “horror”, em sua definição mais comum. Mas até que ponto um filme que constrói toda uma atmosfera de paranoia em seus protagonistas deixa de ser considerado uma obra de horror? Os espectadores certamente não ficarão com medo em momento algum do filme. O mesmo, porém, não pode ser dito de seus personagens.

Praticamente filmado em apenas um espaço, o filme retrata uma família que, após uma infecção dizimar boa parte da população, vive escondida em uma casa na mata. Com rotinas restritivas de segurança para evitar que sua esposa Sarah (Carmen Ejogo) e o filho Travis (Kevin Harrison Jr.) sejam infectados, Paul (Joel Edgerton) se vê em conflito quando Will (Christopher Abbott) , um desconhecido, chega clamando por abrigo e comida para sua própria família. Incentivado pelos seus protegidos, Paul decide dar uma chance ao jovem.

Em meio a premissa batida de um mundo destruído por uma doença, o diretor e roteirista Trey Edward Shults opta não por explorar esse mundo, mas explorar os homens e mulheres resultantes de tal situação. Ilustrando sua visão por meio de poucos personagens, especialmente por Paul, Shults demonstra maturidade ao contar sua história, criando uma sensação de insegurança constante tanto para seus personagens quanto para o espectador. Permeado tais momentos de tensão com poucas, porém efetivas, sensações de tranquilidade, Shults equilibra os tons do filme e cria uma obra complexa, cujo clima relembra o excelente “A Bruxa”.  

Com apenas um outro longa no currículo, o fraco “Krisha”, o diretor continua a mostrar elementos que o destacaram dentro da cena independente, quando lançou seu primeiro filme em 2015. Câmera próxima ao rosto dos personagens, dando a sensação de sentirmos cada emoção deles; o uso eficiente da fotografia para, aos poucos, revelar mais de um cenário; uma personagem cuja personalidade não pode ser resumida a poucas palavras. Neste caso, o jovem Travis. Por meio do despertar de sua sexualidade com a chegada de Kim (Riley Keough), esposa de Will, e dos constantes pesadelos causados pela morte do avô para a infecção, o adolescente serve como ponte entre a paranoia que assola os protagonistas e os eventos estranhos que ocorrem ao redor da casa.

Assim como em “O Abrigo” (2011), a paranóia é o fator constante aqui. Permeando cada pensamento de Paul e fazendo a sensação de temor crescer a cada cena, expectativa de que a qualquer momento um familiar pode ser perdido para a doença leva os personagens a altos níveis de estresse. Nesse ponto, os atores estão em sintonia com a dramaticidade pedida pela situação, com fortes atuações do elenco.

É uma pena que, ao final, a expectativa gerada por todo o desenvolvimento do filme acabe em uma resolução insatisfatória. Ainda assim, “Ao Cair da Noite” é um suspense que cumpre sua proposta, por mais que use de alguns jump-scares desnecessários para jogar sustos gratuitos no espectador. Para além desses problemas, o longa se mostra como um passo significativo para a carreira de seu diretor, que não tem medo de mostrar o lado mais assombrado e acuado do ser humano.

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica: “Ao Cair da Noite” (EUA, 2017). De Trey Edward Shults. Com Joel Edgerton, Kevin Harrison Jr e Christopher Abbott. Suspense.

Recomendado para você