Cinema às 8

As divindades imigrantes de “Deuses Americanos”

Tão importante quanto a qualidade de uma obra, o timing de lançamento pode ser o fator definidor do sucesso. A adaptação de “Deuses Americanos” (2001), premiado romance do escritor, quadrinista e roteirista inglês Neil Gaiman, quicava de estúdio em estúdio sendo tachado de inadaptável. Aí veio a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e o cerne da obra se mostrou essencial demais para ser ignorado.

Shadow (Ricky Whittle) e o senhor Wednesday (Ian McShane)

A primeira temporada, com oito episódios, foi disponibilizada semanalmente no serviço pago de streaming Amazon Prime Video entre 30 de abril e 18 de junho e, de cara, deixou uma marca. O grande mérito da adaptação, criada por Bryan Fuller (de “Pushing Daisies” e “Hannibal”) e Michael Green, é conseguir manter o espírito moral do romance intacto, ainda que incluindo sub-tramas, novos personagens e reviravoltas modificadas. Em “Deuses Americanos”, somos apresentados a Shadow Moon (Ricky Whittle), ex-presidiário que é solto com dias de antecedência para poder lidar com a bizarra morte da esposa. Na viagem de volta, ele conhece o carismático trambiqueiro Wednesday (Ian McShane), que oferece algum objetivo para uma vida de alguém sem prumo.

O “leprechaun” Mad Sweeney (Pablo Schreiber)

Até aí, tudo é linear. Só que “Deuses Americanos”, livro e seriado, se move nas entrelinhas. Cada um dos oito episódios se inicia com uma espécie de preâmbulo, algo que encerrava os capítulos do romance. Nessa introdução, não vemos Shadow, Wednesday ou qualquer dos personagens centrais. Vamos ao passado norte-americano. Vemos criminosos britânicos sendo enviados para os EUA para viver um regime de servidão. Vemos escravos africanos, desesperados, pedindo ajuda em navios negreiros. Vemos deuses da morte egípcios, oferecendo alento a quem dedicou respeito a eles. Vemos guerreiros vikings perdidos fazendo sacrifícios a Odin em busca de uma viagem segura de volta para a Escandinávia. Ou seja, acompanhamos a chegada dos imigrantes que formaram a diversidade e imensidão dos Estados Unidos.

Logo após o contato com Wednesday, Shadow começa a descobrir uma espécie de sombra no mundo em que vive (com perdão do trocadilho). Ele briga com um autodenominado leprechaun (duende mítico irlandês), consegue formar uma tempestade usando a concentração, e, aos poucos, substitui o niilismo puro por uma crença absoluta. Para discutir moral, “Deuses Americanos” investe em religiosidade. Isso fica claro logo de cara, principalmente na brilhante introdução do segundo episódio, “O segredo das colheres”. Ali, dentro de um navio negreiro, um escravo pede ajuda a uma aranha, que se transforma em Anansi, o deus africano das histórias. Em um monólogo de tirar o fôlego, a personificação da divindade reconstrói a trajetória de racismo que ajudaria a formar a identidade dos Estados Unidos. Como apenas um deus poderia fazer, ele causa medo e espanto ao contar uma história que começava a ser escrita ali, dentro de um navio, e que continuaria sendo escrita em sangue negro até hoje.

Cada aparição da Mídia (Gillian Anderson) é mais espetacular. Nessa, ela imita Marilyn Monroe

Para além do timing e do roteiro bem podado, “Deuses Americanos” ganha força com um casting preciso. Ricky Whittle tem a imposição física que Shadow pede, enquanto Ian McShane traz sorriso e dúvida a cada frase. A entediada presença de Emily Browning também é das mais precisas. Mas quem é dona da série é Gillian Anderson (a eterna Scully, de “Arquivo X”), que faz a personificação da Mídia. É a partir dela que o conflito entre os deuses antigos, representados pela misteriosa figura do senhor Wednesday, e dos deuses novos, da tecnologia, é explicada. Um conflito entre tradição e progresso, entre mito e ciência. Ao representar a mídia, a atriz surge vestida de Lucille Ball, de David Bowie, de Marilyn Monroe e delicia a cada presença.

Assim como no livro de Neil Gaiman, “Deuses Americanos” rapidamente se transforma de um drama de personagem em um road-movie que viaja por um passado mitológico norte-americano. E, de destino em destino, a série consegue aumentar a expectativa sobre a identidade real de Wednesday. As dicas são muitas e, para quem conhece várias mitologias pode adivinhar rapidamente, mas o momento da revelação é o segundo melhor desta primeira temporada. O problema é que esse momento demora, bastante, e os episódios 5, 6 e 7 perdem de vista o bom ritmo inicial e final da série. Mas, lembremos, às vezes o timing consegue superar os pormenores de uma produção. E, bem, “Deuses Americanos” mostra que, desde a origem, os EUA são um país feito de imigrantes criminosos, escravos e fugitivos e que agora tem um presidente protecionista e que persegue estrangeiros. A ironia cobra seu preço.

(andrebloc@opovo.com.br)

Ficha técnica
Deuses Americanos
(American Gods, EUA, 2017), de Bryan Fuller e Michael Green. Drama. Episódios de 55 minutos. Amazon Prime Video/canal Starz. Temporada de oito episódios baseados no romance de Neil Gaiman

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