Cinema às 8

“Transformers: O Último Cavaleiro”: insanidade em larga escala

Credita-se ao físico teórico alemão Albert Einstein a frase segundo a qual “insanidade é fazer a mesma coisa repetidas vezes e esperar um resultado diferente”. Pois bem, a franquia “Transformers”, capitaneada pela grandiloquente visão de Michael Bay, chega ao seu quinto espécime oferecendo a mesma fórmula: explosões, exagero, cenas de ação confusas e robôs gigantes alienígenas que se transformam em veículos. Sem buscar evoluir um centímetro da proposta, “Transformers: O Último Cavaleiro” resgata a trajetória das tais máquinas desde as lendas arturianas sobre a Távola Redonda até um futuro apocalíptico em que um planeta ameaça a segurança dos humanos.

Por algum motivo, os robôs gigantes resolveram usar espadas neste filme

Vale lembrar que, dentro dos cinco filmes da franquia, a Terra já foi praticamente destruída (principalmente em “Transformers: O Lado Oculto da Lua”) e os terráqueos já amaram, odiaram, amaram e odiaram Optimus Prime, protetor dos humanos e líder dos Autobots. E herói dos quatro filmes anteriores. “Transformers 4: A Era da Extinção” (2014), o caminhão-robô resolve sair da Terra e ir para seu planeta natal, Cybertron, para proteger seu lar adotivo. Chance de uma renovação na franquia e introdução de novos heróis? Nah. Só um desvio completamente sem sentido no roteiro. E apesar de salvar o planeta quatro vezes antes, Optimus precisa repetir “Eu sou Optimus Prime” cerca de cinco vezes no filme. E olha que ele e Bumblebee são os únicos Transformers com um design claro o suficiente para serem reconhecíveis.

Afinal, por mais que o estilo grandiloquente e vistoso de direção de Michael Bay seja reiteradamente criticado desde o primeiro filme, é no roteiro que mora o non-sense. Cobra-se pouca lógica de uma franquia que se centra na noção de dois povos-robôs-gigantes-alienígenas-que-se-transformam-em-veículos lutando na Terra. Mas ainda com um realismo em suspenso absoluto, existe uma demanda clara por lógica interna. O universo apresentado por Michael Bay, no entanto, sofre de memória fraca, com as regras sendo mudadas constantemente. Daí, em “O Último Cavaleiro”, temos uma série de personagem cujas motivações são um verdadeiro mistério. Em resumo, o filme parece apenas uma corrida rumo a destinos aleatórios e que envolvem um número absurdo de personagens. Vencedor do Oscar por “Uma Mente Brilhante”, mas também roteirista de obras como “A Quinta Onda” (2016), “Anjos e Demônios” (2009) e “Batman & Robin” (1997), Akiva Goldsman parece dedicado ao caos ao criar uma trama ao mesmo tempo ambiciosa, confusa e absolutamente estúpida.

Um transformer com nome irrelevante e que segue a temática arturiana

Para uma franquia que, já no filme anterior, propunha os Transformers como causa para a extinção dos dinossauros, não deveria ser surpresa a inclusão da Lenda de Artur. A ideia é incluir um mistério, uma conspiração no estilo “O Código Da Vinci” (2006) (caso você não tenha notado o padrão, esse também é de Akiva Goldsman e também é fatalmente ruim). Dessa forma, dois novos personagens são incluídos para desvendar tal mistério: o sir Edmund Burton (Anthony Hopkins) e a professora Vivian Wembley (Laura Haddock). O primeiro faz parte de da ordem milenar dos “Witwiccans”, que guardam o segredo dos Transformers. Apesar de existir dos tempos arturianos, a “seita” parece referenciar Sam Witwicky, protagonista dos três primeiros filmes da série. Já Vivian é pouco mais que um par romântico de Cade Yaeger (Mark Wahlberg), eterno protagonista genérico de filmes de ação.

Com um orçamento de mais de US$ 200 milhões (quase seis vezes maior do que o de “Em Ritmo de Fuga”), “O Último Cavaleiro” parece investir em efeitos visuais de um super sentai, franquia japonesa que tem em “Power Rangers” sua referência mais familiar. Parece que as faíscas por trás das explosões funciona para trabalhar o saudosismo dos fãs de “Transformers”. Mas a franquia nunca se assumiu um tokusatsu, ao contrário de “Círculo de Fogo” (2013) ou até “Kong: A Ilha da Caveira” (2017). Em vez de beber desse histórico, Michael Bay revisita a própria filmografia para referenciar Cuba sem qualquer contexto, em uma participação non-sense do ótimo John Turturro.

Cogman ajuda os 150 minutos a serem mais suportáveis

Mas, para além disso tudo, Michael Bay faz o que se espera dele. Grandiosidade, exagero, batalhas entre robôs diferentes (dessa vez, usando espadas, Deus sabe por quê). Explosões, barulho e Transformers criativos (o mordomo-ninja Cogman é a principal adição). Mais uma vez, ele se apaixona por máquinas em detrimento do material humano, mas trata tanto um quanto o outro como seres descartáveis. Tão descartáveis que nem temos certeza quando ou se um Transformer morre. “O Último Cavaleiro” não é só um filme de ação ineficiente, que empalidece frente a qualquer obra autoral de gênero. O novo Michael Bay consegue decepcionar mesmo em comparação aos quatro antecessores.

Insanidade é esperar resultados diferentes de uma mesma ação. Michael Bay repete a mesma ação. Mas ele nunca esperou me convencer de sua qualidade. Ele perdeu há anos o compromisso artístico, substituindo-o por visão comercial do meio. Na verdade, ele espera o mesmíssimo resultado de antes: alguns milhões no bolso a despeito do desprezo da crítica. Quem, talvez, se perca no jogo da insanidade seja eu e muitos colegas críticos, que insistimos em esperar qualidade artística de fontes que parecem não ter qualquer interesse em linguagem cinematográfica.

(andrebloc@opovo.com.br)


Cotação: nota 1/8

Ficha técnica: Transformers: o Último Cavaleiro (EUA, 2017). De Michael Bay. Com Mark Wahlberg, Laura Haddock e Anthony Hopkins. 149 min

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