Cinema às 8

“O Filme da Minha Vida”: Filmar uma ausência

Entre técnica e linguagem, o cinema consegue se abrir de diferentes modos para conseguir seu objetivo. Um diretor capaz pode filmar um sentimento, bem como um ator traduz um passado pesado de um personagem nas rugas sob seus olhos. Com uma ainda curta mas já importante filmografia, o ator/diretor Selton Mello vem se expondo como um cineasta sentimental – no bom sentido. Em sua nova obra, “O Filme da Minha Vida”, o brasileiro aposta em traduzir em imagens a ausência sentida por seu protagonista. O resultado é uma adaptação delicada e que leva Selton Mello a um novo patamar.

Luna (Bruna Linzmeyer) e Tony (Johnny Massaro)

“O Filme da Minha Vida” é uma adaptação do romance “Um Pai de Cinema”, do chileno Antonio Skármeta, famoso pelo livro “O Carteiro de Pablo Neruda”, que rendeu a adaptação “O Carteiro e o Poeta” (1994), de Michael Radford, Massimo Troisi. Na trama, acompanhamos Tony Terranova (o ótimo Johnny Massaro), professor de francês em uma pequena cidade no sul do Brasil na década de 1960. Sonhador e perdido na memória do pai, que abandonou a família dois anos antes, o protagonista mal nota a paixão da amiga Luna (Bruna Linzmeyer). De certa forma, Tony nunca teve um guia para esse tipo de joguete depois do sumiço do pai, figura bem presente na infância do rapaz.

O fator mais interessante da direção de Selton Mello é como ele estabelece essa dicotomia entre o pai outrora presente, mas que abdicou do convívio familiar abruptamente. De um lado, temos os flashbacks de Tony, com o pai, Nicolas (Vincent Cassel), como guia das pequenas conquistas do filho. De outro, temos uma atmosfera de sonho, de distração no presente perdido do jovem professor de francês. Para preencher esse vão, Tony busca conforto em Paco (Selton Mello), o embrutecido melhor amigo de Nicolas. Paco é uma nova figura paterna, um novo guia construído em várias camadas pelo ator (que também é diretor/roteirista). Há ali uma relação de segundo pai, de padrasto, exposta ainda pelo apagamento gradual de Sofia (Ondina Clais Castilho), mãe de Tony.

Como ator, Selton Mello se impõe até fisicamente em cena

O desenvolvimento mais forte de “O Filme da Minha Vida”, no entanto, é quando Tony deixa de agir como filho e começa a ser guia. Existem as lições dadas pelo pai, entrecortadas pela aproximação de Paco, mas o protagonista tem uma maneira própria de guiar Augusto (João Prates), seu aluno e irmão de Luna. Aos 14 anos, o garoto vive em plena efervescência sexual e busca em Tony um guia. Logo ele, um professor de francês de 20 anos, virgem e que nunca tomou qualquer iniciativa para resolver os próprios conflitos. Puritanismos à parte, Paco, Tony e Augusto encontram uma nova biblioteca de sentimentos em um bordel na fronteira sul do Brasil.

A qualidade do elenco, principalmente de Selton Mello e Johnny Massaro, ganha ainda mais força pelo trabalho minucioso de composição dos temas propostos. No centro da trama, por exemplo, há o cinema na cidade fronteiriça. Lá, Tony assiste o clássico “Rio Vermelho”, faroeste de Howard Hawks e Arthur Rosson e que traz no cerne um conflito que antecipa o clímax de “O Filme da Minha Vida”. Na arte, nada é por acaso e a escolha de referências declaradas abertamente em uma obra sempre revelam diferentes tons para o roteiros.

As inserções de fantasia de Tony dão novos tons às ausências sentidas pelo personagem

Filmado todo em um tom sépia, que remete a algo antigo, “O Filme da Minha Vida” tem na direção de fotografia uma de suas forças. O veterano Walter Carvalho consegue imbuir sentimento poético à memória de Tony com o uso rico de cores em flashbacks e no posicionamento preciso da câmera. Note-se, por exemplo, a introdução de Paco e de sua morada. Há ali um conflito interno do personagem, sentido já na forma como a câmera o aborda. Selton Mello ainda investe na autoralidade para evidenciar o deslumbramento de Tony, algo que, por mais que soe por vezes forçado, é efetivo na construção desse arquétipo improvável de macho. É como se, com delicadeza e um quê de ingenuidade estilo “Amélie Poulain”, Tony fosse um homem construído de forma igual por suas memórias e seu querer.

Por mais que tenha uma roupagem bem convencional, “O Filme da Minha Vida” não se perde quando ousa. É um longa que se debruça na difícil missão de filmar algo que não é palpável: um sentimento, uma ausência. Conseguir cobrir esse espaço visualmente é seu maior mérito, mesmo que a obra perca alguma força no terceiro ato, quando o mistério do sumiço do pai de Tony ganha novos contornos. Em seu terceiro longa como diretor, Selton Mello volta a câmera para o invisível e de lá traz uma mala cheia de sentidos.

“O Filme da Minha Vida”, de Selton Mello, chega aos cinemas no dia 3 de agosto.

(andrebloc@opovo.com.br)

Cotação: nota 6/8.

Ficha técnica
O Filme da Minha Vida
(BRA, 2017), de Selton Mello. Drama. 112 minutos. Com Johnny Massaro, Selton Mello e Vincent Cassel.

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