Cinema às 8

“Corpo Elétrico”: a política do acinte

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A série de nomes e origens no elenco de “Corpo Elétrico”, longa de estreia do mineiro Marcelo Caetano, é uma pista do que o diretor propõe. Filmado na zona industrial de uma São Paulo sempre definida pelo trabalho, o filme mostra um ideal de diversidade com a formação de um elenco de funcionários de uma confecção. E ali, em pé de igualdade, estão nordestinos e sudestinos, heterossexuais e homossexuais, brancos e negros, homens e mulheres. E, no movimento mais brasileiro que há, eles se conectam no toque, na dança e na música que surge nos raros intervalos de uma jornada de trabalho exaustiva. E é no acintoso jogo de atração e repulsa entre diferentes que “Corpo Elétrico” propõe, com leveza e humor, uma discussão política sobre o que é ser livre, o que é ser homem e o que é ser só.

Elias (Kelner Macêdo), Wellington (Lucas Andrade) e Simplesmente (MC Linn da Quebrada)

Marcelo Caetano envelopa sua obra de uma sexualidade pulsante e constante. Dentro de uma realidade de periferia, de classes com menor poder aquisitivo, o diretor investe em um protagonista externo, mais privilegiado. Apesar de o protagonista indicar maior fragilidade ao filme, o paraibano Elias (Kelner Macêdo) versa com o corpo o ideal de liberdade proposto pelo cinema. Generoso tanto consigo quanto com os outros, o migrante nordestino é estilista assistente de uma confecção e nutre amizades tanto com seus superiores quanto com os funcionários do setor industrial. Solitário, ele vê no contato social uma forma de exorcizar seus medos, seus desconhecimentos. E transforma em sexo o seu desejo de intimidade.

Apesar dessa solidão constante do protagonista, “Corpo Elétrico” nunca vislumbra uma possibilidade de amor romântico. O amor ali é carnal, é de momento, catarse. O roteiro, baseado no poema “Eu Canto o Corpo Elétrico”, do norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892), trabalha o encontro como possibilidade narrativa. De certa forma, os roteiristas Marcelo Caetano e Gabriel Domingues versam sobre diferentes caminhos, diferentes pistas sobre o destino de Elias, mas não se comprometem e nenhuma delas. Tudo pode ser real ou um simples devaneio do apetite sexual de Elias. É sempre um jogo de experiência e expectativa, em que a sexualidade e a sensualidade de homens é posta em xeque frequentemente.

A relação de Wellington e Elias é uma quebra e mostra uma nova e rica possibilidade no filme

A trama central é das mais abertas. Perpassa, basicamente, uma sequência de parceiros sexuais de Elias e as diferentes perspectivas que eles abrem. Há todo um espectro GBTQ ali e o maior mérito de “Corpo Elétrico” é conseguir subverter expectativas. Há, por exemplo, uma provocação de Elias com o colega de Guiné-Bissau, Fernando (Welket Bungué). Caetano claramente aponta o arquétipo da hipersexualização da masculinidade, do homem negro, apenas para quebrar completamente essa noção e mostrar Elias se aproximando de Wellington (Lucas Andrade), também negro, mas inevitavelmente afetado, feminino, livre, bonito. Não há ali o padrão vigente de comportamento médio do homem homossexual aceito pela sociedade, um padrão heteronormativo. É, em suma, uma quebra, um acinte. “Corpo Elétrico” é provocação constante, estreitamento dos limites. E a presença de Wellington e da sua família de drag queens liderada por Márcia Pantera é mais que um alívio cômico: é um ato político pela diversidade.

Esse processo de intimidade próprio de Elias, que se mistura e se modifica no contato com as pessoas, é explorado de forma excepcional na direção de fotografia de Andrea Capella. O movimento pelas ruas vazias, nos guetos fechados, nos pequenos espaços cênicos dão um sentido de intimista reconfortante. A melhor cena do filme é claramente a saída dos funcionários da confecção: um longo plano-sequência que define as aproximações e distanciamentos de cada agente do filme. Elias é, de certa forma, um fator externo, mas também uma novidade que aproxima as diferentes personas retratadas ali. Marcelo Caetano promove uma viagem intimista dentro da sempre grandiloquente São Paulo. Mostra que mesmo uma metrópole não precisa ser feita de grandes cenários turísticos ou tons de sépia-trabalho. A Cidade é feita de pessoas e suas diversas cores.

Já na direção de arte, Elias se diferencia dos colegas fardados

“Corpo Elétrico” é filme de encontros, de toque, de brasilidade. Um filme que conjuga a diversidade em diferentes tons. Foge das discussões óbvias sobre ser LGBTQ e propõe um olhar de desconstrução para as minorias enquanto seres sociais. Muito por conta disso, o protagonismo de Elias incomoda. É bom que o privilégio cause constrangimento ou até alguma repulsa. Afastar, depois de tudo, é também um movimento. E “Corpo Elétrico” é mais do que questões pessoais: é um movimento que encadeia personagens.

(andrebloc@opovo.com.br)

Filme exibido na sessão Aceccine, realizada pela Associação Cearense de Críticos de Cinema, como parte do Festival Cine Ceará, em parceria com o Cinema do Dragão e a Vitrine Filmes.

“Corpo Elétrico” estreia no dia 17 de agosto.

Cotação: nota 6/8

Ficha técnica
Corpo Elétrico
(BRA, 2017), de Marcelo Caetano. Drama/Comédia. 94 minutos.

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