Cinema às 8

“The Post: A Guerra Secreta”: quando a verdade bate à porta

1352 1

Existem muitos contextos que fazem de The Post: A Guerra Secreta, novo filme de Steven Spielberg, um filme bem mais complexo do que um drama sobre um furo jornalístico. Guerra do Vietnã, crescimento do jornal The Washington Post, renúncia de Richard Nixon, eleição e primeiro ano de governo de (sim) Donald Trump. Nessa miscelânia de assuntos políticos, sociais e econômicos, Spielberg consegue construir um filme complexo e coeso.

No início dos anos 1970, o New York Times (NYT) começa a publicar, com exclusividade, reportagens que expõe 30 anos de mentiras dos presidentes norte-americanos sobre a Guerra do Vietnã. Dwight Eisenhower, John Kennedy, Lyndon B. Johnson e Richard Nixon, todos cúmplices na morte de milhares de soldados em uma guerra perdida. No filme, no entanto, não acompanhamos o gigante jornal nacional, mas o médio jornal regional Washington Post, que buscava maneiras de deixar de estar a reboque no furo do NYT.

Tal qual Spotlight – Segredos Revelados (2015), boa parte de The Post se passa no acompanhamento da chefia da redação. Só que no filme de Spielberg há um atrativo a mais: a presidência do periódico. Katherine Graham (Meryl Streep) é uma mulher num mundo de homens e, como é comum em uma sociedade machista, é menosprezada por isso. Assessores, rivais, amigos, tratam como se ela fosse mais uma esposa (no caso, viúva) do que uma empresária. E Streep, como de costume, mostra a força da personagem e o crescimento que a situação proporciona. Ela surge intimidada, gaguejante, insegura. Mas se mostra forte pela capacidade de ouvir, sejam os ricos amigos empresários ou Ben Bradlee (Tom Hanks), editor-executivo do Post.

Um dos méritos de The Post é trabalhar paralelamente a investigação jornalística de Bradlee e Ben Bagdikian (Bob Odenkirk) e o dilema de Graham, que decidira recentemente abrir o capital do jornal para poder investir mais. É um duelo, comum no jornalismo, entre idealismo do compromisso com a informação e o pragmatismo econômico.

Pode não ter a força do tema de Spotlight (pedofilia na Igreja Católica), mas tem uma direção envolvente, que joga o público em meio a uma investigação. E como o tema “Era Nixon” é tão bom, The Post funciona como prequel dos ótimos dramas jornalísticos Todos os Homens do Presidente (1976) e Frost/Nixon (2008).

Se situar bem os anos 1970 e a política da época era difícil, Spielberg consegue algo que vai além: ele fala da política norte-americana em 2018. No filme, Nixon é uma figura sombria, uma voz sem rosto. Ainda assim, ele é caracterizado como sujeito rude, com mania de perseguição e uma pecha por censura da cobertura jornalística que o desagrada. Soa familiar? Em suma, The Post é um filme que conversa sobre 1970 e sobre 2018, o que escancara o quão pouco evoluímos nesses tempo.

Cotação: nota 5/8

Sugestões de filmes sobre cinema e jornalismo

A MONTANHA DOS ABUTRES (1951)
O clássico noir de Billy Wilder mostra um jornalista em busca de uma grande história. Em um mundo competitivo, ele passa a explorar o drama de um homem preso dentro de uma caverna para reerguer a própria carreira.

NETWORK: REDE DE INTRIGAS (1976)
No drama de Sidney Lumet, os bastidores do jornalismo televisivo são mostrados a partir da história de um âncora televisivo que anuncia que vai cometer suicídio no ar. Vencedor de quatro Oscars.

O BEIJO NO ASFALTO (1980)
Adaptação de Bruno Barreto da peça homônima de Nelson Rodrigues, mostra a repercussão sensacionalista de um beijo na boca dado por Arandir (Ney Latorraca) em Aprígio (Tarcísio Meira), que estava prestes a morrer após ser atropelado.

AUSÊNCIA DE MALÍCIA (1981)
Uma falsa acusação de assassinato, plantada e publicada em um jornal, muda completamente a vida de um homem. Na ânsia de se retratar, a repórter enganada passa a investigar o caso, o que pode ter reflexos ainda mais graves na vida de outras pessoas.

CAPOTE (2005)
A história da criação do clássico do novo jornalismo A Sangue Frio, de Truman Capote. O filme mostra a aproximação do autor, interpretado por Philip Seymour Hoffman, com Perry Smith (Clifton Collins Jr.), condenado pelo assassinato de uma família.

O QUE SE MOVE (2013)
O filme de Caetano Gotardo não fala de jornalistas, mas parte do jornalismo. São três adaptações inspiradas em notícias brutais publicadas pela imprensa brasileira.

Outras 10 dicas:
Correspondente Estrangeiro (1940); Cidadão Kane (1941); Todos os Homens do Presidente (1976); Os Gritos do Silêncio (1984); Zodíaco (2007); Quase Famosos (2000); Boa Noite e Boa Sorte (2005); Frost/Nixon (2008); Spotlight – Segredos Revelados (2015); Christine (2016)

The Post – A Guerra Secreta: Distopia assinada por Spielberg

Recomendado para você