Cinema às 8

“A Favorita” – As regras no jogo de interesses

As polêmicas obras do cineasta grego Yogos Lanthimos parecem ter caído no gosto do público e criado um estilo particular para alfinetar os questionamentos sobre a alma humana. Filmes como “O lagosta” e “O sacrifício do Cervo Sagrado” levantam situações em que convenções sociais são postas à prova e o lado que o humano mais busca esconder fica exposto. Em “A Favorita”, a batalha pelo poder é o grande tema, porém, em tons de comédia com deboche requintado.

Ambientado na corte aristocrática da Inglaterra do Século XVIII, o longa enfoca a figura conturbada da rainha Anne, vivida pela atriz Olivia Colman a última descendente viva da dinastia Stuart, e seu séquito de administradores do reino. Dentre eles, uma figura se destaca como sendo o centro de influência de sua majestade, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) que é o braço direito de todas as suas decisões. Adentrando esse universo da corte está a recém chegada Abigail Masham (Emma Stone), uma ex-membro da nobreza que agora se encontra na pobreza e que recorre ajuda a Sarah, atual “manda chuva” do lugar e também sua prima distante.

Emma Stone interpreta Abigail Masham

Aos poucos, Abigail vai adentrando nesse ambiente cheio de complicadas tramas e relações de poder. Inicialmente considerada sem importância na figura de uma serva do palácio, ela é subestimada pelos que estão ao seu redor, mais tarde revelando o seu caráter astuto e conspirador por meio de suas estratagemas.

Não demora muito até que fica óbvio o ponto a ser atingido: a confiança da monarca. Acometida por várias doenças, seu temperamento explosivo alterna momentos de pura birra infantil com dependência emocional da sua principal assistente, Marlborough, com quem mantém uma relação íntima em todos os sentidos.

Temos então a trama central do filme concentrada nessas três figuras femininas, que, por mais que vivam em uma sociedade patriarcalista, onde as forças convergem para que apenas os homens se beneficiem e as mulheres enfim se dobrem à sua vontade, elas também batem de frente com essa força e se fazem ouvir e obedecer, mesmo a contragosto deles.

O grande acerto de Lanthimos é no ritmo em que dá ao longa. A edição rápida, marcada em atos nomeados com elementos chistosos da trama casa perfeitamente com o timing da comicidade explorada pelos personagens. E outro ponto fundamental para que esta se sustente está no tom certo dado pelos atores, o que poderia ser facilmente arruinado caso houvesse um exagero em seus maneirismos. Tudo é na medida certa.

Mas nem tudo tem ar de trama novelesca cem por cento na trama, até porque tornaria tudo cansativo e over. Outro grande acerto é mostrar que o grande “sol” do sistema solar da corte inglesa é na verdade a personagem mais vulnerável. Olivia Colman faz um trabalho soberbo ao trazer todas as facetas da rainha Anne, que, mesmo à mercê de suas garotas favoritas, detém, acima de tudo, o poder.

Uma das máximas do filme, tal qual como a lei da física de sir Isaac Newton diz que, para cada ação existe uma reação. Podemos incluir também que tudo tem seu preço. Possivelmente seja isso que dá o tom do filme e permeia as ações dos personagens o os tornando tão interessantes. Nunca se sabe qual será o próximo golpe no tabuleiro do jogo de interesses da corte da rainha, com o perdão da analogia ao xadrez!

 

Cotação: 7/8

 

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