Cinema às 8

“Boy Erased” – Traumas e busca pela identidade

A luta pela visibilidade das pessoas LGBT e por seus direitos básicos continua avançando em nossa sociedade, porém, é inegável que algumas feridas abertas pelo estigma do preconceito entranhado em algumas religiões ainda permaneçam. É abordando temas delicados como esse que “Boy Erased – Uma verdade anulada” abre espaço para discussões sobre conflito entre religião, sexualidade, masculinidade, dentre outros temas.

O filme é baseado no livro “Boy Erased: a memoir”, de Garrard Conley, no qual o escritor norte-americano narra as próprias lembranças do tenebroso período em que participou de um programa de conversão que prometia “curá-lo” da homossexualidade.

Na trama do filme, acompanhamos a vida de Jared, interpretado pelo ator Lucas Hedges, um garoto tímido, filho de pai pastor da igreja Batista, vivendo em um meio sóbrio e conservador. A mãe, vivida pela atriz Nicole Kidman, parece ignorar os sinais do filho, corroborando com a opinião do marido sobre o que é necessário para que tudo volte à “normalidade” do ambiente familiar.

Nicole Kidman vive a mãe de Jared

Depois que um incidente acontece e traz à tona a sexualidade do filho, eles veem nisso algo condenável pela própria religião e é com base nela que buscam orientação e o enviam ao programa cristão, baseado na crença de que toda a sexualidade não heteronormativa é um desvio de conduta e que deve ser suprimida até a sua erradicação. Utilizando métodos vexatórios e extremos, seus participantes na verdade são submetidos a abusos psicológicos e à vulnerabilidade em nome da “cura”.

A direção de Joel Edgerton nos conduz ao cerne da introspecção de Jared, sempre envolto em uma aura sóbria pelas paredes de sua casa, território dominado exclusivamente pelas regras ditadas por sua religião. É sufocante observar um ambiente tão claustrofóbico em que a posição ocupada por ele em sociedade o obrigue a permanecer fixo do que se espera dele, mas ele próprio está sempre ausente encerrado dentro de si ,buscando secretamente sua identidade e sua sexualidade.

A terapia de conversão é um dos temas do filme

Essa dualidade de imagens (quem realmente eu sou e quem os outros esperam que eu seja) é trabalhada com a sensibilidade necessária e passa pelos três atos do filme. Quando se vê vulnerável pela situação que o confronta a abraçar o programa religioso, Jared à princípio faz uma tentativa de colaboração na sua “recuperação”, mas ao longo das etapas, as pessoas ao redor, mais precisamente os outros participantes, o sugerem fazer parte do “jogo”. Logo fica claro o despropósito em tudo em prol da geração de uma falsa imagem agradável a sociedade heteronormativa e cristã, mas que aniquila o sindivíduos por dentro.

Outra grande questão presente do filme é como toda essa repressão acaba resultando em atos catastróficos que são convenientemente ocultados pelos indivíduos parte daquele grupo religioso com justificativas vazias, e que deixam profundas marcas difíceis de serem curadas.

O ritmo do longa é comedido, e por vezes perde ritmo ao vagar por entre fases da vida de Jared de forma desordenada. Ao presenciarmos a motivação de seus pais, que é a religião, para enviá-lo ao tratamento, não vemos o impacto disso na vida deles, que sempre parecem de certa forma desconectados com o filho. Russel Crowe, intérprete do Pastor Eamons, entrega uma atuação bastante plástica, mas com alguns bons momentos que ainda assim não atrapalham o andamento do todo. Lucas Hedges é uma boa surpresa em uma atuação bastante honesta dentro de suas limitações.

Depois de nos instigar tantos sentimentos diversos, o que provavelmente fecha o filme seja o da redenção de seu protagonista, mas ainda assim soa distante e agridoce. Há traumas profundos demais que nem mesmo o tempo é capaz de curar, e parece que um meio de exorcizar esses demônios seja mesmo trazê-los à tona.

 

Cotação: 6/8

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