Cotidiano e Fé

Mutirão Carcerário – Um desafio espiritual

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O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) está promovendo a campanha nacional que visa dar liberdade a presos provisórios que superlotam o sistema carcerário do país, segundo estatísticas esse grupo representa 65% da população carcerária. Cada estado reúne grupos compostos por magistrados e funcionários da justiça para analisar a situação dos presos provisórios ou mesmo, condenados. Para se ter uma ideia da abrangência da medida, os mutirões promovem:

– Conversão de pena privada de liberdade em restrição de direitos (penas alternativas);

– Novo exame nos processos que indicam situações prisionais por medidas de segurança;

– Recambiamento ou transferência de presos de outros estados;

– Reexame de processos de medidas restritivas de liberdade aplicadas pela Vara de Infância e da Juventude.

Enfim, como resultado destas análises processuais teremos milhares de presos sendo libertados por penas extintas, progressão de regime e cumprimento em liberdade de penas alternativas.

Nesta última semana, participei de uma reunião com magistrados e ouvi a preocupação geral com o destino desses seres humanos que estão sendo libertados pelo mutirão. Só em nosso estado, mais de 2000 presos já foram devolvidos ao convívio da sociedade e muitos outros estão por receber o benefício.

Dois comentários me impressionaram durante aquela reunião: o primeiro proferido por um magistrado que expressou, a exemplo do que já vem ocorrendo em outros estados e como fruto da própria observação dele: “A verdadeira liberdade acontece quando essas pessoas têm uma experiência religiosa com Deus”. Tal afirmação revela o clamor da sociedade por um evangelho transformador que precisa sair dos “templos”.

Outro comentário trazia a insistente ênfase de uma funcionário, não evangélico, ao perguntar: “O que é que vocês evangélicos vão fazer com o preso quando ele sair para fora do presídio? Vocês entendem as implicações deste ato? Como vocês podem nos ajudar?”.

Em resposta a tais indagações a representação evangélica parecia não compreender a linguagem ou a proposta do funcionário. Toda a preocupação gravitava em torno do livre acesso ao interior do presídio e do trabalho de evangelização de alguns indivíduos dentro da população carcerária.

Nosso paradigma de evangelização e fé ainda não comporta a ressocialização do preso, o cuidado com a família do mesmo, a profissionalização do cidadão para a sua reinserção no mercado de trabalho, cuja concorrência dentro e fora do presídio oferece no tráfico, na criminalidade ganhos imediatos, vultosos e muito acima do que um trabalho honesto pode oferecer. Claro que tais conceitos ainda são muito novos para a nossa prática religiosa, pois fomos criados para atrair pessoas ao “culto” e cuidar apenas da sua desencarnada “alma”, como se um filho de Deus não precisasse de comida, lugar para morar, oportunidade de trabalho, documentos, dignidade familiar, saúde, saneamento etc.

Evangelismo e Ação Social precisam se encontrar, se misturar e se tornar parte integrante do testemunho de quem conhece a Cristo. Jesus fez isso, pregou e deu pão aos famintos. Atraiu os necessitados e com amor alcançou o coração de muitos, enquanto tocava a pele e o chão dos presos espirituais.

Saí daquela reunião pedindo sabedoria ao Senhor para ocupar a brecha e levar nossa comunidade a compreender o evangelho que restaura a alma e a saúde do perdido, que liberta o preso das cadeias do pecado e oportuniza trabalho, moradia digna, saúde e saneamento para os que buscam uma real oportunidade de experimentar a liberdade dos filhos de Deus.

Quantos voluntários, quantos empresários, quantos profissionais, quantos investidores, quantos misericordiosos se levantarão para compor esse mutirão libertador (Isaías 61)? Só Deus pode levantar esse exército para resgatar e dar dignidade aos que ainda estão atrás das grades. Proponho um mutirão espiritual!