Cotidiano e Fé

100% Jesus

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Concordo plenamente / Você tem opção/ Escolha Livremente/ O que vale é o coração. Assim começava um dos hits mais marcantes para quem participou do movimento jovem evangélico nos anos 1990. A primeira vez que o ouvi, foi em um evento chamado Expresso B, na Igreja Betesda de Fortaleza. Na composição, voz e interpretação, Allison Ambrósio. Não foi uma coisa comum. Para mim aquela música representava, pela letra, arte, estilo e atitude, o espírito de quem vibrava com um tipo de evangelismo contextualizado com a nossa geração, e ao mesmo tempo ancorado na Bíblia. A partir daí, usufrui da bênção de ouvir e às vezes simplesmente transitar nos bastidores de eventos (como o Festival 3401), com um artista cristão que exalava alegria, vivacidade, poesia, negritude, criatividade e sincera devoção em tudo que compunha ou interpretava.

Difícil de entender. O nosso Allison hoje canta nos céus. Mas sua breve passagem entre nós deixa exemplos, saudades e legados que serão usados pelo Espírito Santo para consolar os seus.

Vem à mente celebrar as possibilidades levantadas por esse artista-pastor (ou seria pastor-artista?). Tanto faz, para quem faz arte e pastoreio de verdade. Impossível não lembrarmos da voz negra e bela do Allison, que fluía com a naturalidade e o poder de tudo o que vem direto da alma. E como essa voz encontrava eco na multidão de adoradores e preenchia o ambiente e os corações. Engraçado perceber que isso acontecia nos grandes ajuntamentos e nas pequenas reuniões. Lembro de um culto de uma pequena comunidade recém-criada, na Avenida da Abolição (sugestivo o nome). O louvor carregado de vozes em estilo negro fez-me ganhar a semana. Em um outro momento, quando ele pregava em uma grande igreja, fiquei pensando como tinha um envolvimento emocional com o que falava. Seus olhos brilhavam orvalhados e seu sorriso era tão farto que me fazia sorrir por contágio. Seus gestos e expressões, tinham talvez mais autoridade que a fala em sua pregação.

O Allison, mesmo à distância, inspirava-me. E certamente a muitos e muitos. Além de pastorear o rebanho e parcela da denominação que ajudou a expandir, compunha e interpretava, indo desde a criação de músicas infantis, como sua Festa na Floresta à participações inesquecíveis como no Musical O Grande Sacrifício. Na última conversa que tive com ele, eu falava que tinha o sonho de revitalizar os parques e bosques da cidade. Ele completou que sonhava que estes parques servissem de palco para uma orquestra formada inteiramente de crianças carentes, que pudessem ser resgatadas através da música. Sonhamos então juntos. E nos descobrimos menores que nossa arte. Mas a arte de Deus jamais vai morrer.

E agora, que não só sabemos, mas sentimos, na dor e saudade, que esta vida é por enquanto, não paro de pensar do coro daquela música do Allison: pra ter vida de verdade tem que ser 100% Jesus . Pois assim ainda haveremos de cantar todos juntos. Novamente / cem por cento / 100% Jesus!

Por: Murilo Marques