Cotidiano e Fé

Eu também “não vou para Pasárgada”

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Destruição, fome, pobreza, dor, milhares de mortos e órfãos: esse é o triste saldo do terremoto que devastou o Haiti nesse início de ano. Por essas bandas de cá o cenário do caos também tem suas  nuanças: corrupção, tráfico de drogas, miséria, pedofilia, enchentes etc e mais etc.

Refletindo sobre todos esses horrores, me lembrei de um texto da escritora Lya Luft, que li já faz algum tempo, intitulado “Não vou para Pasárgada”. Para quem não lembra, Pasárgada é o paraíso do poeta Manuel Bandeira, onde se pode viver pelo sonho. Nada de tristeza, nem desalentos, “lá eu sou amigo do rei […] lá a existência é uma aventura, de tal modo inconsequente […] em Pasárgada tem tudo, é outra civilização […]”. Eu, inspirada pelas palavras da Lia Luft, também andei pensando em fazer as minhas malas e ir embora para esse reino inventado. Sair da rotina, fugir dos noticiários e dos desastres anunciados. Quão inebriante seria escapar da dura realidade! Mas, assim como a escritora, decidi ficar. As nossas razões, no entanto, divergem. Ela, pelos seus leitores, ou talvez por um senso patriótico. Eu, por outras razões que julgo eternas.

Seria mais fácil, certamente mais fácil, ignorar ou mesmo fugir do caos que nos rodeia. Alguns nem vão tão longe, não precisam imaginar a Pasárgada do poeta, apenas ligam a TV e assistem o Big Brother Brasil, símbolo maior da bestialidade consagrada pelos dias atuais. Vamos nos inebriar com o tosco e esqueçamos a nossa “corresponsabilidade” com o mundo que salta das janelas, ou seria melhor dizer, que salta dos televisores? Seja forjada pela proposta de entretenimento e diversão, seja acometida pela apatia, o certo é que nossas mentes andam padecendo do mal do individualismo e da indiferença. E, vejam bem, esse texto não é bem um clamor a algum tipo de militância, ou mesmo uma crítica daquelas bem manjadas, é apenas uma despretensiosa constatação. Ludibriar, consentir e padecer, esse é o lema!

Cristo nos chama para uma missão cujos frutos redundarão em vida, tanto agora como depois, para mim e para aqueles que eu conseguir alcançar. Enquanto estiver  por aqui, opto por não me omitir, mesmo que os reinos inventados sejam aparentemente mais convidativos. Ele me dotou com a capacidade de fazer escolhas, e a minha é não me acomodar. Definitivamente, eu também não vou para Pasárgada.

 

Por Deiviene Ulhôa