Cotidiano e Fé

A dança no gelo

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Em meio a esse calor, que tal uma espiada na olimpíada de inverno? Foi o que fiz nesta semana. Na tela um esporte que, com certeza, não era o meu preferido: a patinação artística, modalidade dança no gelo. Que grata surpresa!

Para mim, aquelas apresentações de casais foram uma grande metáfora da beleza da Criação, principalmente da vida a dois entre um homem e uma mulher.

Dupla canadense medalha de ouro em Vancouver (Foto AFP)

Dupla canadense medalha de ouro em Vancouver (Foto AFP)

A patinação solo exige força, ritmo, equilíbrio e interpretação. A dança no gelo, quando em dupla, exige a harmonização disso tudo e mais, muito mais.

Em minha espiada aleatória, vários foram os casais, com suas indumentárias e coreografias variadas. Todos eles representariam, na minha imaginação, os tipos possíveis dos casamentos de hoje, já tão distantes dos propósitos eternos. A união meramente estética e chique do par. A união funcional voltada para o resultado e o total de pontos. A união experimental com acrobacias inusitadas. Mas todos esses tipos sujeitos aos tempos e contratempos da música da vida e a uma temida variável: a imprevisibilidade da performance do outro.

Imagine todo o esforço preparatório dos patinadores. Treinos sem fim – alguns casais patinam juntos desde criança – , a escolha do tema, das roupas, a agenda, a busca de recursos. Imagine a expectativa da família e dos amigos. Imagine o grande dia, a arena lotada, as expectativas do mundo sobre aquela apresentação a dois.

Acontece parecido nos casamentos, não só nas cerimônias, no dia-a-dia também. É a arena da vida. Imagine, então, em meio à dança, quando tudo deslizava perfeito, um dos dois simplesmente, infelizmente, infortunadamente, inexplicavelmente… Cai.

Na patinação a reação é interessante. A dança precisa continuar e continua, o que não deixa de ser uma lição para os casamentos de hoje. Um dos patinadores mantém a dança, o outro acompanha. Um elegantemente dá a mão para o outro. E tudo prossegue.

Mas, após a queda, há nos rostos uma nota grave do drama presente, da incerteza do futuro, dos porquês de continuar. Quando termina, há diferenças nos abraços finais de cada dupla. Uns acolhem carinhosamente aquele que errou custando-lhes a medalha. Outros não conseguem disfarçar o gelo que invadiu seus corações a censurar o par, mesmo maquiado por um sorriso televisivo.

Mas acima de tudo, houve uma cena que me arrebatou… Entrou um casal, dois jovens. Eles não dançavam, viajavam nas asas do sonho. Sopravam como brisa. Deslizavam sinuosamente como o vento num campo repleto de flores. Circulavam em harmonia como sangue apaixonado das pessoas que se amam, que se almejam, que se entrelaçam, que se esperam depois das voltas, que saltam de costas na certeza que o outro aparará.

A aura daquela dança encantou com a certeza do ouro a mim, a plateia e os jurados (que chato ser jurado nessa situação). Essa apresentação, por mais romântica que possa ter sido – e real também – figura como a razão de todo esforço, o objetivo daquela competição, um norte para aqueles que ainda não chegaram, mas um dia poderão chegar lá.

Quero agradecer aos canadenses Tessa Virtue e Scott Moir, que conquistaram a medalha de ouro na dança no gelo dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver. Devo uma lição que aprendi deles. Animaram em arte e corpo a mensagem não menos poética do Gêneses: e sejamos dois uma só carne! De hoje em diante, se alguém me disser que pretende se casar, direi: leia a Bíblia e assista à patinação artística!

Hoje vou voando para casa.

Por: Murilo Marques