Cotidiano e Fé

Oração da Propina

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Em matéria de testemunho na política, o público evangélico parece chegar sempre na hora do Amém. Isso é tão doloroso, quanto é verdade. Parecemos desprezar nossa atuação como o sal da terra. Chegamos sempre atrasados quanto ao assunto é nosso bairro, cidade, País, ou nosso planeta. “– Não gosto de política mesmo!”. É a desculpa esfarrapada. Por outro lado, estamos todos preocupados. É a nossa segurança e o futuro de nossa família que está em jogo. Mas aguardamos uma resposta vinda dos céus, de preferência sem que precisemos fazer o menor esforço. O perigo maior está dentro de nós: acomodação não casa bem com vida cristã.

Esta semana, vimos as manchetes: “Deputado da ‘oração da propina’ renuncia”. Trata-se do deputado dito evangélico, que também era corregedor geral da Câmara Distrital (responsável pela disciplina ética dos colegas), em Brasília, um dos protagonistas do escândalo de propinas que até hoje tem deixado órfão o governo do DF, com seu governador preso, e secretários, deputados e lobistas seriamente indiciados. O esquema de corrupção envolvia o legislativo e o judiciário, como uma infestação generalizada do poder público que deveria ser devotado ao bem de todos. Nos vídeos que chocaram o Brasil, o deputado aparece ora recebendo dinheiro, ora rogando aos céus livramento e prosperidade para os envolvidos, incluindo a si mesmo.

Estamos indignados e paralisados. Mas eis o ponto em que queria chegar: alguns desvios de costume, impropriamente chamados “evangélicos”, plantaram essa semente. Chegamos ao extremo da espiritualização alienada da mensagem cristã. A oração da propina, na realidade, deriva da visão de mundo bem presente na vida comum dos fiéis e do clero gospel, com as honrosas e esperançosas exceções.

Culturalmente, praticamos a oração da propina quando oramos por cura, em troca de dinheiro e poder. Quando manipulamos as crença de pessoas simples, em troca de controle. Quando oramos por benção para nossos projetos pessoais, mesmo trazendo prejuízos para os outros. Quando oramos por perdão, sem disposição de deixar o erro. Quando, mesmo silenciosamente, agimos como o fariseu contra o publicano (Lc18), dizendo “Graças te dou, por não ser como esse publicano”. Essa oração não é só condenável pela falta de humildade, tão clara no texto. É também nociva por tentar passar uma mensagem cifrada para o publicano. Uma oração que, para bons entendedores, quer mesmo é comunicar algo aos circunstantes, não a Deus, que aí é tratado como mero pretexto.

Mesmo que seja difícil reconhecer isso, o deputado da propina não agiu assim tão isolado. Ele foi um produto político da mobilização dos antiéticos e da omissão dos éticos (omissão seria ética?). Embora tenha chocado seus eleitores (muitos dos quais voltarão a votar nele), atuou representando a chamada teologia da prosperidade, da bênção a qualquer custo ético. Essa ideia é um atentado contra o Evangelho, como um tiro vindo do próprio púlpito a serviço de apetites desumanos. Os arautos da prosperidade dizem que para conseguir algo basta determinar, que será despachado por um deus burocrata e manipulável. Alguns políticos aprenderam bem a fórmula. Eles enfeitam corrupção, propina, desamor, com essa pregação em uma voz chorosa e perguntam: Amém irmãos?

Amém, coisa nenhuma! Enquanto tivermos forças, lutemos para que assim não seja!

 

Por: Murilo Marques