Cotidiano e Fé

Made in Sergipe: Beira-mar e Bispo

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O nordeste brasileiro é formado por um povo de característica nômade, principalmente no período dos anos 50 a 80. Foi nesse período que o êxodo de nordestinos ao sudeste ajudou a construir as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e proporcionou uma mistura curiosa de sotaques. Uns puxando pelo “di”, outros acrescentando palavras ao vocabulário “oxente” e, outros ainda falando mais lento ou cantado. Bem, o fato é que eles foram, ficaram e ainda tiveram seus descendentes nessas terras mais ao sudeste deste imenso Brasil.
Não sei se os baianos que migraram para lá são maioria entre os nordestinos, mas o fato é que todo o nordestino que chega naquela região é tido por baiano. Porém, todos os nordestinos que pousaram por aquelas terras, levaram consigo a esperança de melhores oportunidades de trabalho para suprir as famílias com mais emprego e renda, e assim, criar seus descendentes com mais dignidade. Dentre esses nordestinos chegaram também as famílias sergipanas Bispo e Costa.
Essas famílias desembarcaram em locais diferentes (uma no Rio de Janeiro e a outra em São Paulo), mas com os mesmos ideais de vencer e dar aos filhos o melhor. Chegaram com pouca bagagem nas surradas malas e com muitos sonhos na cabeça. Destas duas famílias nasceram Fernando e Armando.
O primeiro filho de sergipanos, Luiz Fernando da Costa, filho de Dona Zenilda, uma dona-de-casa e faxineira, e de pai desconhecido, nasceu e cresceu na cidade do Rio de Janeiro. Sua mãe o criou sozinha até o dia em que morreu atropelada, deixando-o com mais duas irmãs. Logo aos 18 anos, Luiz Fernando começou a praticar os primeiros assaltos e aos 20 passou a vender drogas. Tornou-se líder de uma das principais facções criminosas do estado do Rio de Janeiro, vindo a ser um dos maiores traficantes de armas e drogas da América Latina. Ficou conhecido pelo pseudônimo de Fernandinho Beira-Mar. Vive atualmente confinado em uma pequena cela no presídio de segurança máxima de Catanduva, no estado do Paraná.
O outro filho de sergipanos, Armando Bispo da Cruz, filho de José Bispo da Cruz, feirante e Josefa Pereira da Cruz, dona de casa, ambos analfabetos. Armando nasceu em São Paulo, teve uma infância cercada de cuidados na simplicidade dos pais, mesmo assim, envolveu-se com álcool, drogas e outros erros da juventude, até que em 1971 fez uma radical entrega para ser um discípulo de Jesus, largando a carreira militar, o mundo empresarial e buscando formação teológica dentro e fora do país, se entregou à pregação da Palavra de Deus.
O Fernando amarga o claustro da cela que o impede de ser o que Deus planejou para ele, enquanto Armando se vê livre para do púlpito recordar seus familiares e os ensinamentos que moldaram o seu caráter. Fala sobre o tema família como muita propriedade, estimula outras famílias a persistirem na importância do exemplo como meio mais eficaz para viver o verdadeiro cristianismo e construir uma sociedade mais justa, pacífica e verdadeiramente livre.
Diante dessas histórias de vida, pergunto: O que podemos fazer para que histórias que começaram de forma tão parecidas não tomem caminhos tão diferentes?  Sinceramente, não sei responder a essa pergunta, mas como policial aprendi a perceber as pistas pelos sinais deixados no percurso. Nesses casos parece que tudo começou dentro de casa, na família, mais tarde reforçado por escolhas que os aproximaram ou não de Deus.
Entendo que a tragédia que vivemos em nossa sociedade (que mata muito mais do que em países que estiveram ou estão em guerra), pode ser transformada por pequenas atitudes de pessoas simples (não especialistas) no acompanhamento, aconselhamento, atenção e amor lançado dentro dos seus lares.
A importância de falarmos sobre esse tema tão particular vai muito além de uma pregação bíblica. Esse tema trata de vidas. Passado, presente e futuro de pessoas. Daí vale continuar a discussão dentro e fora da Igreja, nos grandes e pequenos grupos.

AUTOR: PLAUTO ROBERTO DE LIMA FERREIRA
Oficial da Polícia Militar do Ceará