Cotidiano e Fé

E se só restasse o céu?

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A Bíblia, em diversos trechos, aborda a existência do inferno, tema recorrentemente tratado por Jesus, mas gostaria aqui de imaginar com você, a título de suposição, a não existência de um castigo eterno e o que isso significaria para nós.

Caso o céu fosse a única possibilidade após a morte, como seria nossa relação com Deus hoje? Como seria o nosso cotidiano e nossas escolhas caso acordássemos com a notícia de que estamos absolutamente livres de qualquer consequência eterna de nossos atos maléficos? Nossas orações continuariam intensas? Nossa agenda de caridades ainda existiria? Os templos ainda receberiam fiéis? Teríamos a mesma disposição em buscar e conhecer a Deus, sabendo que o “futuro eterno” está garantido?

O que nos move em relação ao Criador? Estamos interessados no que Deus pode dar ou em quem Ele é, essencialmente? Em tempos nos quais queremos a satisfação imediata de nossas necessidades, Deus para muitos não tem passado de uma fábrica de resolução de problemas, uma caixinha de milagres ou um “papai noel” de tempo integral.

Tendemos a enxergar nossa relação com Deus erroneamente, como se sempre precisássemos fazer algo para merecer uma recompensa. Tentamos ser bons filhos, bons pais, bons cidadãos e bons religiosos, mas na perspectiva de recebermos aprovação, saúde, status, bem-estar e, em última análise, o céu, esquecendo-se de que todo o esforço necessário à vida eterna já foi feito na cruz por Jesus de Nazaré, e do fato de que não podemos acrescentar um milímetro ou uma gota de sangue sequer ao que já foi consumado em nosso favor.

Não é fácil entender a Graça. Exatamente por ser de graça. Ela não tem custo algum, ao contrário: possui um lucro: o de que Deus está interessado não apenas em nossa vida após a morte, mas também em nossa vida aqui na Terra. Tão importante quanto para onde iremos amanhã é como vivemos hoje.

Deus se revela em sua Palavra como alguém que deseja se relacionar conosco. Aliás, foi para isso que nos criou, e não para brincar de escolher uns para o céu e outros para o inferno. Carregamos em nossos genes e nossa alma a capacidade divina de estabelecer relacionamentos, mas muitos temos esquecido que o próprio Criador acena para nós todos os dias, nos chamando para a intimidade. O auge destes acenos divinos foi a cruz do calvário.

Ela denota que o próprio filho de Deus estava na Terra. Gosto de entender o céu como a comunhão plena com Deus. Ora, e não foi isso o que Jesus veio fazer na Terra? Ele deixou o céu, nos mostrou e viveu o caminho para o relacionamento pleno e direto com Deus aqui na Terra, algo que ele já vivia no próprio céu.

Quero me relacionar com o Deus de milagres, mas não por causa de seus milagres nem apenas quando preciso deles. Quero andar perto do Deus que através do sacrifício de seu filho me promete o céu, mas com uma esperança que está não apenas para além deste mundo, mas também neste. A esperança de que posso viver de tal forma que, ao me encontrar com Deus após a morte, o céu não me seja estranho.

Quero por um momento imaginar que o céu é a única possibilidade para a humanidade, para poder andar com Jesus e dizê-lo que, mesmo assim, escolho andar com Ele hoje, que isso me satisfaz e que seu amor faz um céu de diferença em minha vida.