Cotidiano e Fé

As pedras estão clamando

375 1

Uma grande autoridade governamental me convidou para conversar com ele e a sua assessoria sobre as questões de violência que afetam o nosso Estado. Ele queria ouvir a opinião de um especialista sobre esse fenômeno que chegou ao absurdo de 4.358 pessoas assassinadas, somente no ano de 2014, no Ceará.

Comecei a conversa apresentando o meu conceito de violência, que entendo ser um fenômeno dinâmico (manifesta de forma diferente em lugares e horários), plural (vários tipos de violência) e multicausal (várias causas). Daí em diante, desenvolvi os meus argumentos. Falei sobre cada ponto exaustivamente. Em certo momento da argumentação, fui interrompido pela autoridade com a seguinte afirmação: “Entendo todos os seus argumentos e os acho procedentes. No entanto, não me interprete mal e nem me julgue como um louco, mas creio que a origem de toda essa violência é a falta de Deus no coração das pessoas. As igrejas deveriam se engajar mais, talvez assim essa matança diminuiria.” Eram as pedras clamando.

Nos Estados Unidos do anos 1980, a violência alcançou seus maiores  índices. Mas, no início do anos 1990, a sociedade americana começou a  observar o declínio da criminalidade. Alguns atribuíram esse declínio a vários projetos de segurança, dentre esses, o que teve maior destaque foi o desenvolvido na cidade de Nova York e ficou conhecido como “Tolerância Zero”. No entanto, o declínio da criminalidade estadunidense ocorreu em todo o seu território. Para o psicólogo Steven Pinker, esse declínio se deu ao que ele chamou de “Processo Civilizatório”, uma avanço contrário à contracultura inaugurada nos anos 1960.

Em Boston, esse processo civilizatório teve a participação das igrejas. Um grupo de clérigos trabalhava junto com a polícia e agências de serviço social para coibir a violência das gangues, aproveitando seus conhecimentos sobre as comunidades locais para identificar os membros mais perigosos das gangues e, ora em reunião com as gangues, ora em encontros com suas mães e avós, alertá-los de que a polícia e a comunidade estavam de olho neles. Líderes comunitários também interromperam ciclos de vingança convergindo para qualquer membro de gangue que houvesse sido agredido recentemente e exortando-o a desistir da retaliação. As intervenções foram eficazes não só em razão da ameaça de prisão, mas porque a pressão externa deu aos homens uma “saída” que lhes permitia recuar sem se humilhar. Esses esforços contribuíram para o “Milagre de Boston” dos anos 1990, no qual a taxa de homicídio caiu para um quinto do que era; e desde então, essa taxa permaneceu baixa, com algumas flutuações.

Aqui, em terras alencarinas, estamos vivendo claramente essa crise civilizatória. A banalidade da maldade humana se apresenta nas redes sociais com gravações de assassinatos filmadas pelos próprios autores ou em divulgações de vídeos de dentro das prisões, protagonizadas por pessoas que deveriam se envergonhar dos atos que o levaram ao encarceramento.

Enquanto isso, o medo se apodera da população, e assim, vêm os políticos trapaceiros que prometem resolver a questão e afastar todos os nossos medos e descontentamentos. Portanto, o medo se tornou uma mercadoria política, abrindo caminho para o populismo e o maniqueísmo na sociedade. Vivemos a obsessão por segurança e cheios de sensação de insegurança, com todos os acessórios do pânico, ansiedade, hostilidade, agressão mais o esvaziamento ou supressão dos impulsos morais. Na parábola do bom samaritano, Jesus fala sobre essa supressão moral, onde a religiosidade se apodera do ser e relega o humano; a ética cristã é suprimida pela legalidade religiosa. Como o cristão se omite e o medo se instala, as pedras clamam.