Cotidiano e Fé

O legado dos pais na vida dos filhos: caminhos e descaminhos na formação do caráter

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Ajude seu filho a formar bons hábitos enquanto ainda é pequeno. Assim, ele nunca abandonará o bom caminho, mesmo depois de adulto

(Provérbios 22:6, Bíblia Viva)

Hoje faz três dias que perdi minha querida mãe aos sessenta e sete anos de idade. Senhora de vida simples, sem posses financeiras e tesouros construídos, mas detentora de grande riqueza da alma e de amor pelos filhos. Depois de quatro meses de luta com uma doença muito grave que a tocou no corpo, faço uma retrospectiva e vejo que nada afetou sua alma. Ela foi mãe, esposa, amiga, serva, e tantas outras funções que cumpriu para viver em família, educando a mim e minha irmã na perspectiva da formação humana. Mesmo não sendo escolarizada e consciente das teorias científicas, a educação e a sabedoria que ela tinha reverberavam a máxima de Pitágoras: “Educai as crianças para não punirem os adultos”. Ela foi uma excelente pedagoga, digna de entrar na galeria dos educadores da vida!

 Diante de uma geração em que os pais estão entregando os filhos para serem educados pela escola, pela internet, pelos jogos de computador e pelos videogames, percebo o quanto fui privilegiado com a presença de minha mãe e do meu pai que me ensinaram os caminhos para a formação do caráter. É preciso entender que a criança não precisa de presentes caros, mas sim da presença dos pais amando incondicionalmente e mostrando que a vida não é fácil. Estar neste mundo é uma caminhada nas trilhas da “Floresta do mal” e do “Pântano do egoísmo”, onde precisamos “matar um leão por dia” para sobreviver a cada instante.

Faz-se necessário educar para além de uma vida frenética em busca do sucesso profissional, mas formar o coração da criança para saber lidar com o fracasso. Além disso, os pais estão transferindo a responsabilidade de educar para a escola. Acham que porque estão pagando caro pelo serviço do “cuidar” e do “educar”, a escola deve tornar uma criança rebelde e que não gosta de estudar, num ser humano gentil e num profissional de sucesso. Entretanto, isso é uma mentira pois não existe passe de mágica no trabalho com seres humanos marcados pela complexidade!

A educação é um processo de mediação social da construção da identidade de sujeitos. Pressupõe relacionamentos, encontro de subjetividades, e vivência de valores. Segundo nosso querido educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), educar é impregnar de sentido cada ato humano. Isso o dinheiro não compra, mas custa o preço da renúncia dos pais de algumas horas de descanso e/ou de trabalho. Nesse contexto, através do diálogo e do brincar, os pais podem ganhar a confiança dos filhos a fim de conquistar a autoridade necessária para que quando estiveram dando ordens/direções no cotidiano, a obediência não seja fruto do autoritarismo, reconhecimento do amor incondicional.

Entendemos o caráter neste artigo como a ação do sujeito baseada em seus valores, independente da ausência e/ou presença do outro como “fiscal da conduta correta”. Neste sentido, caráter é o que somos quando ninguém está perto, reputação é o que os outros dizem que somos. Em alguns momentos da nossa vida pode ser que a reputação não esteja em conexão com o caráter por conta de situações de calúnia e/ou inveja de outrem. Entretanto, a coerência de um ser humano ético é que sua reputação possa refletir o seu caráter na vivência de todos os papeis sociais.

Essa formação do caráter se constrói, sobretudo, no seio familiar! Aqui está o pecado de nossa geração: estamos destruindo a família e entregando nossos filhos a sociedade capitalista para fazem deles “máquinas de sucesso profissional” enquanto estão fracassando no caráter como seres humanos de bem! O texto citado na epígrafe, aponta-nos duas questões importantes sobre isso: a formação de bons hábitos na infância e a vida no bom caminho na fase adulta.

Em primeiro lugar, a Psicologia e a Pedagogia afirmam que as estruturas cognitivas de uma criança se consolidam por volta dos sete anos. Neste sentido, os pais têm aproximadamente sete anos de investimento na vida de seus filhos para que isso permaneça para a vida toda. Educar não é fácil. Pressupõe perder noites de sono nos primeiros dias/meses de vida, gastar tempo para contar histórias, assistir os mesmos filmes várias vezes, valorizar a produção das crianças, verbalizar o afeto todo o tempo, renunciar momentos de trabalho, profissão e/ou com amigos para estar com os pequenos, etc. São as experiências das crianças com os pais no contexto dos relacionamentos interpessoais que vão formar o caráter.

Além disso, não bastam palavras. Imagine a seguinte situação: se todos nós fossemos transportados para viver em um outro país que não soubéssemos a língua e os costumes de lá, como é que poderíamos ali sobreviver? Nós iríamos utilizar a observação! Ficaríamos extremamente atentos às ações e às práticas dos sujeitos e quase nada em suas palavras. É assim que as crianças são educadas. Elas estão no mundo desconhecido dos adultos e o tempo inteiro olhando para aquilo que eles estão fazendo para poderem reproduzir os comportamentos do grupo social em que estão inseridos. Um alerta: cuidado papais e mamães com o exemplo dado aos seus filhos no cotidiano! Que modelo de ser humano, vocês pais, estão demonstrando nas suas ações? Que acessos de raiva e/ou desonestidade são praticados na frente dos filhos no trânsito, no mercado, com a esposa, no trabalho? Isso tudo é ensinamento para eles. Lembrem-se: a formação dos bons hábitos deve ser feita quando eles ainda são pequenos!

Em segundo lugar, a vida adulta no bom caminho é resultado da educação na infância. Hoje em dia o Estado e a família estão fazendo o contrário do que nos alertou Pitágoras: estão punindo o adulto porque não educaram as crianças. Estamos investindo muito mais em cadeias do que na família e na escola. Um pré-adolescente, adolescente, jovem e/ou adulto tem menos abertura a aprender uma nova maneira de viver do que uma criança. Jesus disse da inocência e da simplicidade de uma criança ao declarar: Depois trouxeram crianças a Jesus, para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas. Mas os discípulos os repreendiam. Então disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus 19:13,14, NVI).

Obviamente que, uma educação para a formação do caráter em que os pais são presentes na vida dos filhos não é uma garantia de uma vida adulta eticamente correta. Entretanto, a semente foi plantada e existe uma grande possibilidade de que os filhos percebendo o amor incondicional que existe em família não queiram experimentar a solidão e a vida pródiga longe da casa dos pais. E mesmo se assim o decidirem, as marcas do ensino falado e vivido em casa sempre estarão na memória, e um dia pode ser que sejam constrangidos por Deus a voltarem como na Parábola do Filho Pródigo em Lucas 15.

Por fim, hoje celebro a Deus como filho a oportunidade de ter tido minha mãe por todos esses anos ao meu lado, junto do meu pai e da minha irmã. Mesmo na ausência do conforto material, devido às várias situações difíceis e privações que passamos quando morávamos em São Paulo, a presença do amor incondicional e dos valores humanos foram o grande legado que minha mãe deixou em meu coração. Nos caminhos e descaminhos da vida, mesmo com as falhas que ainda tenho, sinto as marcas de sua generosidade, bondade, afetuosidade, disposição para trabalhar, coragem de viver, e luta por dias melhores, ficarão para sempre como memorial para as minhas próximas gerações. Assim, deixo a pergunta para todos os pais que me leem: Que o legado que vocês como pais estão deixando para seus filhos? Quanto vocês partirem desta terra, que riquezas da vida eles poderão dizer que ficaram para eles como herança eterna? Eis um grande desafio a todos nós!