Cotidiano e Fé

Um olhar, um papelão: um pedido de ajuda inusitado

Era noite e eu estava a caminho da faculdade, quando, de repente, como um vulto correndo para a frente do meu carro na faixa de pedestre, uma pessoa apareceu. Estava descalça. A roupa era branca, porém suja.

Cobria seu rosto com um pedaço de papelão rasgado, permitindo que fosse visto apenas os seus olhos. Confesso que, inicialmente, tomei um susto e fiquei sem reação, porém, com um tempo, achei que se tratava de um pedido de ajuda. Atentei ao pedaço de papelão, porém não tinha nada escrito e o rapaz permanecia parado. Era possível ver apenas seus olhos movendo-se de um lado para o outro. Foi então que, muito rápido, ele tirou o papelão do rosto e saiu correndo novamente. Creio que nem eu nem a pessoa que estava no carro emparelhado ao meu entendeu coisa alguma do que tinha acontecido à nossa frente. Passei a primeira marcha e prossegui para minha prova. Percorri o restante do caminho pensativo, refletindo sobre aquilo que acabara de acontecer.

Dois pensamentos me vieram como um ensinamento em meio a isso. O primeiro foi que, muitas vezes, não sabemos pedir ajuda; o segundo foi que não conseguirmos interpretar a linguagem do outro e, consequentemente, não entendemos o que o outro quer dizer.

Um pedido de ajuda sempre será um pedido de ajuda, porém tomo como aprendizado a importância de aprender a pedir ajuda. Colocar um papelão e cobrir o rosto, a fim de que a pessoa tente adivinhar o que estamos precisando não é uma das melhores formas de pedir ajuda. Hoje, um dos maiores desafios dos relacionamentos em geral é o fato de que, muitas vezes, queremos que os outros saibam quando não estamos bem ou quando estamos precisando de algo, porém uma verdade é que nós precisamos falar e ser claros, pois nem todos conseguem discernir ao certo o que precisamos, a não ser que falemos. Por isso, deixar claro o que estamos precisando é um passo e tanto para que os outros saibam como estamos ou do que precisamos.

Muitas vezes, interpretar a linguagem do outro é uma incógnita porque é difícil estar atento, difícil não gerar expectativas. Talvez possamos dizer que é uma das mais importantes missões: estar sensível e ser empático com a dor do outro. E isso pode ser redundante, pois a ajuda que se quer dar pode não ser o que o outro de fato precisa. E, assim, entra em jogo aquela discussão: eu dou o peixe ou o material para pescar? Às vezes, é necessário dar o peixe e, às vezes, dar o material para a pesca. Por isso digo que é redundante, pois o outro é que sabe de suas próprias intenções e o fato de ele saber não significa que seja o que realmente precisa.

Quem sabe, então? Diga-me, você, quem sabe?

Reforço a você o que está registrado em Filipenses 2:4, “Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros”, o qual tenho como lema de vida. É algo que precisa ser levado em consideração.

Agora, diga-me, você, como vou saber a necessidade do outro se ele não sabe dizer e se nós, muitas vezes, não sabemos interpretar a sua linguagem?
Não vou dar uma resposta, apenas reflitamos.

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