Cotidiano e Fé

Uma honrosa vocação

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Ao caminhar para os “finalmentes” do meu curso de teologia da Faculdade Teológica Sulamericana (FTSA),  estudando o curso Comunicação e Homilética, ministrado pelo Prof Wilhan Gomes, deparei-me com um capítulo do livro EU CREIO NA PREGAÇÃO, do saudoso teólogo anglicano John Stot. Fascinado com o estudo e leitura, não pude deixar de refletir sobre esta honrosa vocação, tendo como pano de fundo experiências pessoais e alguns comentários do citado curso e livro.

Costumo dizer que um dos mais extraordinários milagres na vida de um ser humano é ser usado por Deus para pregar a Sua Palavra. Todas as vezes, repito, todas as vezes que sou convidado para pregar sinto o peso da responsabilidade. Já faço isso há, no mínimo, 15 anos, mas sempre parece ser a primeira vez. Tremo por dentro, o coração acelera e, antes de me dirigir para frente da comunidade, peço no íntimo de mim ‘Vem comigo Espírito Santo’.  

Pregar a palavra de Deus não é restrito aos púlpitos. Nunca foi e nunca será, mas é sobre esta experiência surreal que escrevo aqui.

Lembro-me como se fosse hoje, quando o Pastor Alexandre Barbosa da Silva, um amigo irmão que hoje é Bispo da Igreja Cristã Nova Vida do Recife, orientou-me sobre as minhas primeiras pregações formais de púlpito. Treinamos juntos, antes do grande dia e, depois daquele dia, pela misericórdia de Deus, não parei mais. Tive sim, uma pausa para um “trabalhar” sobrenatural e restaurador de Deus que me fez por em prática tudo que eu já havia pregado até então. Após esse particular com o Eterno, recebi do Pr Alcimou Barbosa (dois Barbosas na minha vida rs) o convite para pregar novamente. Lembro como se fosse hoje! Estávamos indo ministrar no Retiro Ser Novo (um retiro espiritual que temos na nossa comunidade, Igreja Batista Central de Fortaleza – IBC) quando ele me fez o convite para pregar no Culto de Quarta, encontro já programado na agenda da igreja. Naquele momento, senti novamente a direção de Deus.

Por que conto tudo isso? Simples. Veja o que diz o teólogo escocês Peter Taylor Forsyth:

“… vou me aventurar a dizer que o cristianismo vence ou é derrotado de conformidade com a sua pregação.”

Ele não está só. Alguns anos depois o também teólogo e doutor Martyn Lloyd-Jones fez a seguinte declaração em seu livro Preaching and Preachers [Pregação e Pregadores] (1971, Cap 1):

“Para mim, a obra da pregação é a mais elevada, a maior e a mais gloriosa vocação para a qual alguém pode ser convocado. Se alguém quiser saber doutra razão em acréscimo, então eu diria, sem qualquer hesitação, que a mais urgente necessidade da igreja cristã da atualidade é a pregação autêntica”.

Dos púlpitos das nossas igrejas ou altares, plataformas, palcos, etc… como queiram chamar, saem às palavras que encontrarão morada nos corações e potencializarão a Igreja de Jesus (o próprio cristão) a ser um arauto da justiça ou um escândalo para o Evangelho.  Infelizmente, os testemunhos dessa Igreja de carne e osso não são nada animadores no contexto brasileiro. O professor e pesquisador Wilhan Gomes fez a triste constatação (Comunicação e Homilética, Outubro/2017, FTSA):

“A pregação da palavra tornou-se apenas um adendo ao show que o culto foi transformado. A profundidade da mensagem deu lugar a recursos tecnológicos com imagens muitas vezes sem nexo, e jargões repetidos. Ao invés de pregar um bom sermão pastores se esforçam para entreter a comunidade por alguns minutos, fazendo de tudo para arrancar palmas e “aleluias e glória de Deus” de todos os presentes. Triste realidade de um tempo em que não se prega mais a palavra de Deus e sim com a palavra de Deus.”

Mas nem tudo está perdido. Aliás, tudo é muito coisa.

Assim como foi com Jesus, Pedro, Paulo, John Wycliffe, Martinho Lutero, João Calvino, etc., Deus sempre levanta seus profetas para proclamar a verdade, assim como fez também João Batista, o primo do nosso Senhor Jesus. Acredito que esses arautos da justiça tem uma característica em comum, acertada em cheio pelo famoso frade Francisco de Assis (CLYDE FANT & WILLIAM PINSON, Twenty centuries of great preachíng, p. 174-5 vol. 1):

“A não ser que você pregue por onde quer que vá, não há proveito em ir pregar em lugar algum.”

Constrangido com essas verdades, cada vez mais impressionado com a importância delas e grato pela misericórdia de Deus em usar-me a despeito das minhas inúmeras limitações, encerro com as emocionantes palavras de Karl Barth, teólogo suíço, considerado por muitos o maior teólogo protestante do século 20 (The word of God and the word of man, p. 123-4, 1928):

“…nada existe mais importante, mais urgente, mais útil, mais redentor e mais salutar, nada existe, do ponto de vista do céu e da terra, mais relevante à situação real do que falar e escutar a Palavra de Deus no poder originativo e regulativo da sua verdade, em toda a sua seriedade que a tudo erradica e a tudo reconcilia, na luz que ela lança, não somente sobre o tempo e as confusões do tempo, mas também além, em direção ao brilho da eternidade, que revela o tempo e a eternidade por meio de si mesma e em si mesma -a Palavra, o Logos, do Deus Vivo.”