Cotidiano e Fé

Outro leviatã

Para onde eu olho vejo desordem. Se ligo a televisão, lá está ela.
Mudo para o rádio ou acesso a internet, ela continua à vista. Já faz parte do
nosso dia a dia. Uma desordem generalizada em todas as áreas.

Ouvi, certa vez, que os nossos problemas seriam resolvidos quando
tivéssemos saúde, educação e segurança de qualidade. Pois é, o nosso
problema, pensava eu, estava nesses três setores. No entanto, os maiores
escândalos protagonizados por autoridades e ex-autoridades orbitam não em
três áreas, mas em três poderes.

A crise institucional do País o põe à deriva em um infinito oceano de
desmandos e corrupção. Como o poder não aceita vácuo, avança o estado
paralelo e marginal que ocupa os espaços abandonados pelo estado oficial.
Novas leis são criadas pelo seu novo dono, determinações são sancionadas
pela força do fuzil contrabandeado e o rito célere da justiça paralela impõe a
ordem pelo medo, acelerando o progresso da desordem.

Quando certa autoridade responsável pela segurança disse que a sua
linha de atuação operacional seria justiça ou cemitério, talvez ele não
soubesse, mas isso já estava sendo implantado. Os números de
assassinatos, chacinas e os corpos mutilados lançados nas ruas já
estão aí para comprovar a veracidade dessa política marginal.
Mas, quantas mortes serão necessárias até que os três poderes
oficiais se deem conta de que já morreu gente demais?

Infelizmente, a resposta a essa indagação aparece dissimuladamente
nas promessas eleitorais messiânicas apresentadas no último dos quatro
anos de gestão, quer seja em nível municipal, estadual ou federal; no
maniqueísmo, entre situação e oposição, que alimenta longas e ineficazes
discussões e nos vernáculos indecifráveis de uma língua morta, em que nós,
simples humanos, estamos exaustos de ver a inércia de Thêmis empunhando
uma espada cega.

O fato é que, infelizmente, não existe mais o monopólio do uso da
força pelo estado oficial, e o Leviatã não é mais um monstro solitário no
estado brasileiro. Parafraseando Blaise Pascal: “Que grande quimera, pois, é
o estado brasileiro! Que novidade, que monstro, que caos, que contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, minhoca imbecil; depositário da
verdade, cloaca de incerteza e erro; glória e refugo do universo.”

 

Revisão: Marilene Pinheiro