Cotidiano e Fé

A Fúria do Verão

Prólogo
Antes de tudo, vale dizer que este não é um texto com intenção generalista. O intuito aqui
não é condenar todos que não passam a vida realizando ações sociais sem parar, nem
destacar a suposta superioridade de alguns de coração mais “nobre”. Não sou tolo a esse
ponto. Pretendo apenas relembrar, aproveitando o ensejo, o que sinto quando percebo o
pouco que faço diante da injustiça. Entendo como funcionamos, automáticos,
despretensiosamente engolindo ano após ano como se fossem meros segundos. Mas isto
é, talvez, um chamado à observação — da cidade, do povo, de nós mesmos. Se houver
palavras pesadas, são destinadas àqueles em quem a carapuça servir. Mais
frequentemente do que gostaria, serve em mim.

Meu momento preferido do ano chegou. “Boas festas!”, “Muita luz!” e tudo que gira em torno
de festejos, felicitações, comemorações etc. e tal. Manjedouras e gorros vermelhos se
misturam e se confundem em shoppings lotados.

Em tempos de festa, a hipocrisia atende muitas portas decoradas com guirlandas,
disfarçada atrás dos sorrisos satisfeitos de faces mortas de moradores e das (não mais
mortas) efígies em moedas distribuídas com um zelo espectral. Isso, claro, enquanto as
residências não são trocadas por lugares menos rotineiros, onde o poder da distância — e
da vastidão de sobras de moedas — separa uns de outros. A época de festas passa rápido,
e logo vem outro ano repleto de realidade. Aproveito enquanto posso.

Pouco tempo depois, noutra estação, aqui estou.

Experimento a fúria do verão. Respiro, inalo o ar quente, observo enquanto a cidade entra
em efervescência ao superar o clima triste de casas fechadas e móveis bolorentos. O mofo
cresce na escuridão, assim como o mal.
Se quase ninguém se importa com o próximo, todos fingem se importar em uma época: no
Natal. Bem na culminação física do inverno — ao menos em alguns países menos
equatoriais. Em meio à neve, aos bonecos com narizes de cenoura, casacos fofos e
moradores de rua, definhando nas esquinas, algumas pessoas se dignam de gastar seu
precioso tempo cuidando de outros que, como elas dizem, “também são gente, apesar de
tudo”.

Enquanto isso, no verão, o mundo vai à praia, o mundo aproveita e se esquece dos amigos,
dos bandidos e dos mendigos. O mundo só se lembra da praia. O sol quente lá fora e, por
dentro, corações frios. Frios e contentes porque doaram uns brinquedos quebrados há
alguns meses.

 

Revisão: Marilene Pinheiro