Cotidiano e Fé

Minha vida é obra de tapeçaria

Minha vida é obra de tapeçaria
É tecida de cores alegres e vivas
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso
Nem imagina o desfecho
No fim das contas
Tudo se explica
Tudo se encaixa
Tudo coopera pro meu bem
(Stênio Marcius)

Gosto das metáforas e das ilustrações, pois elas ajudam a concretizar aquilo que é abstrato, assim como o Mestre dos mestres fez, usando a pedagogia das parábolas com elementos do cotidiano (uma semente, um campo, um semeador, um filho, um pai, um administrador) que levam os ouvintes à reflexão sobre o eterno, através do temporal, sobre o
infinito, através do finito. Dessa maneira, a ilustração descrita na poesia cantada de Stênio Marcius contribui para pensar a vida humana na perspectiva de tecer os fios de um belo tapete artesanal.

Em primeiro lugar, viver é o constante tensionamento entre a alegria e a tristeza. Assim, “minha vida é obra de tapeçaria / É tecida de cores alegres e vivas / Que fazem
contraste no meio das cores / Nubladas e tristes”. Tal colocação do poeta traz à tona o contraste das cores alegres e vivas com as cores nubladas e tristes. Dessa forma, não há
possibilidade de pensar a vida como caminho retilíneo e invariável – vida se articula em meio aos contrastes.

Portanto, viver é correr riscos. É saber que, no meio do caos em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que nos leva a entender que a alegria e a tristeza são sentimentos que
se tensionam. Não saberíamos o valor da alegria se não houvesse a tristeza e vice-versa. Entretanto, tal posicionamento equilibrado da existência humana, que é baseada no
inacabamento, só é possível quando entendemos que, na presença de Deus, “[…] o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria” (Salmos 30:5 – NVI).

Em segundo lugar, é preciso aprender a olhar a vida além do “avesso” das contradições do cotidiano porque “se você olha do avesso /Nem imagina o desfecho”. Um
belo tapete artesanal visto pelo avesso não tem nenhuma beleza. É um monte de linhas trançadas sem definições e contornos claros. Nesse sentido, tudo que viver como desafio da
vida precisa ser olhado para além do avesso. O desemprego pode ser visto como possibilidade de uma nova etapa na vida profissional. Uma traição pode ser vista como um livramento. Um período de dificuldade financeira pode trazer à tona a oportunidade do exercício da fé em Deus. Nessa direção, o Sábio declara: “Quem está satisfeito despreza o mel, mas para quem tem fome até o amargo é doce” (Provérbios 27:7 – NVI). De um lado, na abastança não se tem a real gratidão, mas, numa situação de privação, tudo que parece ruim é percebido com bons olhos.

Por fim, nesse processo de tensão da vida entre a alegria e a tristeza, quando aprendemos a olhar tudo pelo lado certo, podemos encontrar o equilíbrio emocional. A música diz que “No fim das contas / Tudo se explica / Tudo se encaixa / Tudo coopera pro meu bem.” Isso nos faz lembrar a história de Jó. Do capítulo 2 ao 41 apresenta-se a discussão de Jó e seus amigos em torno do porquê da dor só fazem sentido na dimensão dos capítulos 1 e 42. O começo e o meio da história só são compreendidos na íntegra na perspectiva do fim da trama. Tudo foi explicado. Tudo se encaixou. Tudo cooperou para o seu bem.

Tal exemplo de vida foi citado no Novo Testamento pelo irmão do Senhor quando declarou: “Como vocês sabem, nós consideramos felizes aqueles que mostraram perseverança. Vocês ouviram falar sobre a paciência de Jó e viram o fim que o Senhor lhe proporcionou. O Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (Tiago 5:11 – NVI).

Aprendamos com Jó. Tudo em nossas vidas tem um propósito. Como no filme “Uma Vida com propósitos”, concordamos que “Deus não desperdiça nada, nem mesmo as coisas
ruins.” Seja a alegria ou a tristeza, a abundância, a escassez, o acolhimento ou abandono, a fidelidade ou traição, a vida ou a morte, devem ser vistos por nós como “caminho para a paz”.
No final tudo se completa. A dor ou a alegria no cotidiano servem como instrumentos de aprendizagem da perseverança e da paciência, a partir da experiência da compaixão e da
misericórdia divinas (Romanos 5:5; Lamentações 3:23). Nossa vida é obra de tapeçaria, obra de arte para glória do grande Artista que está tecendo os fios da história, trançados aos fios da cotidianidade, a fim de fazer tudo convergir para a glória de Deus (I Coríntios 10:31; Colossenses 3:15-17).