Cotidiano e Fé

O amor que não cabe em si

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Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim!
(Djavan)

 

Em que mundo terrível estamos vivendo? Não é possível pensar caminhos para estancar a violência, a maldade, o crime e a falta de humanidade entre os próprios ditos “seres humanos”. Isso porque o egoísmo é o vírus que infectou a raça humana desde o Princípio, e hoje se materializa na sociedade do lucro individualista. Diariamente nos deparamos com um dos ecos resultantes da quebra do relacionamento da criatura com o Criador: “Então o Senhor perguntou a Caim: ‘Onde está seu irmão Abel?’ Respondeu ele: ‘Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?’ (Gênesis 4:9)”. Diante disso, compreendemos que não basta nascer do gênero humano, é preciso aprender a ser humano, em outras palavras: aprender a sair de si e amar o outro!

Ficamos às vezes a nos perguntar por que certas mentes questionam a subjetividade humana em nome da razão cética, se a maior necessidade humana é subjetiva: precisamos de afeto amoroso. Tal sentimento e/ou emoção na perspectiva do mundo ocidental é entendida com uma prática do querer bem pelo mundo oriental. Portanto, o amor não é um sentimento, mas um comportamento. Não é pura abstração da mente, entretanto, é concretude de ação do amante em prol do objeto amado. Para discutir esta temática, recorro à poesia cantada de Djavan na música Pétala para pensar a exatidão do amor que transborda, o encantamento do amor que se revela e a sutileza invasiva do amor no coração da gente.

Na exatidão do amor que transborda percebemos a contradição da totalidade que é incontida em si mesma. Por isso, não é possível pensar o amor ensimesmado, isso é egolatria. O amor pressupõe transbordamento do “eu” na direção do “tu” e a busca do bem estar do “nós”. De um lado, toda prática humana narcisista que ama a contemplação de si está fadada a morte do eu. Não produz nada além da vaidade humana. De outro lado, toda ação altruísta que vive o transbordamento que nos permite sair de nós mesmos e encontrar o outro em suas necessidades gera vida individual e comunitária. Este modo exemplar de viver a vida encontra materialidade em Cristo Jesus: “Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto” (João 12:24).

Essa exatidão inexata conduz-nos a reflexão do encantamento do amor que se revela. Se o amor não cabe em si ele transborda de si para se auto-revelar. Algum dia ouvi que amar é encantadamente ver a perfeição na imperfeição, é conhecer e ser conhecido, é dar de si e receber do outro. Entretanto, o “amor não é cego”. Tal encantamento não torna o amor míope, ao contrário, amar amplia a visão do ser amado do/no ser que ama. Assim, “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13). Logo, se Deus conhece o ser humano no mais intimo do coração e resolveu amar, não existe cegueira em quem verdadeiramente ama, “como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele sabe do que somos formados; lembra-se de que somos pó” (Salmos 103:13,14). O amor encontra nos limites do amado a potencialidade que transforma e não a imperfeição que hipertrofia.

Por fim, essa condição do encantamento que se revela fala também da sutileza invasiva
do amor. Notemos que o poder, as armas, a truculência são formas de coação e domesticam o ser
humano de fora para dentro. Sem o elemento coercitivo não é submissão, obediência, relação. Ao
contrário, o amor é certa “coação que não coage”. Amar é viver uma obrigação desobrigada de querer
bem ao objeto do amor. Amizades, casamentos e relacionamentos interpessoais marcados pelo
verdadeiro amor acontecem de maneira sutil. De repente, sentimo-nos fisgados pela livre
prisão de amarmos e sermos amados. O coração da gente é invadido por uma coisa gostosa
por alguém!

Queremos estar perto, conversar, ficar o maior tempo possível com quem amamos. Quando o amor do Criador nos invade a alma sedenta de aceitação e de sentimento de pertencer é isso que acontece “pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram” (2 Coríntios 5:17). Orar, ler a Palavra de Deus e partilhar com amigos chegados são desejos e práticas que nos invadem constantemente quando somos marcados pela sutileza do amor de Deus.

Em suma, o amor de Deus não cabe em si. Pela exatidão de Seu amor que desde a eternidade transborda em cada um de nós, somos encantados pela revelação que Ele nos deixou: a natureza, a história, o homem, a encarnação de Jesus, a Palavra Escrita e a presença maravilhosa do doce Espírito que nos ensina a viver satisfeito cada dia. A Palavra Eterna se fez Palavra Encarnada para nos deixar a Palavra Escrita que é alimento e direção para nossa vida todos os dias. Façamos desse amor que chegou até nós o princípio de vida que encanta a todas as gentes quando cantamos ao Senhor com as notas e com os ritmos que emanam da música da nossa vida para trazer a este mundo a boniteza que nos permite SER MAIS em
Cristo!