Cotidiano e Fé

Pródigos em festa

O que acontece quando alguém está fugindo, mas pensa que está se encontrando?

Uma vez por ano, tudo é permitido. Uma vez por ano, o povo se distrai e se esquece dos problemas de sua vida cotidiana. Uma vez por ano, muitas pessoas resolvem fazer o que não têm coragem no resto dele, enquanto outras fogem pra longe ou se fecham em casa. Parece a trama de Uma Noite de Crime, mas não é. É Carnaval!!

Nessa semana de folia, muita gente deixa convenções sociais, freios sexuais e moderação de lado em nome da diversão. É a época do ano em que o Instagram troca fotos de baladas, academia e pratos chiques por suor, multidões e chifres de unicórnio.

Mas se você para por um instante, é engraçado pensar no porquê dessa festança que parece que não vai acabar, mas é esquecida tão rápido quanto veio — exceto pela ferramenta de lembranças do Facebook — e substituída pelo dia a dia estressante de empregados fatigados e universitários esmagados pelo peso de mil livros.

Quando conjecturo sobre a natureza desse feriado, me vêm à mente três expressões: controle, desproporcionalidade da rotina e sentido. Vejamos uma a uma:

Controle, porque não faltaram estudiosos e artistas a explicar como o Brasil é um imenso Panem et Circenses meia-boca. E dentro dessa realidade de chicotear e dar um doce, o governo brasileiro certamente se aproveita dos momentos em que o povo está mais preocupado com a festa do que com as medidas políticas e econômicas.

O Carnaval, então, junto com o pré-Carnaval — que está chegando tão cedo que já já vai começar mais ou menos na semana seguinte ao Carnaval —, é uma excelente arma pra agradar o povo e torná-lo menos revoltado por um tempinho, enquanto a ressaca passa e cada um termina de postar as 250 fotos de suas fantasias.

Até aqui não temos nenhuma novidade — quase todo mundo sabe que vários feriados são, também, pequenos respiros concedidos por capricho a pessoas desgastadas, mas poucos recusariam um descanso oportuno. Sendo que o Brasil parece dar uma atenção especial a esse momento carnavalesco do ano, e tudo para pra assistir e se deleitar na bagunça levemente organizada. Pra resumir tudo isso, basta citar a brilhante letra de Brasileiro, dos fortalezenses Selvagens à Procura de Lei: “Porque eu sou brasileiro / Meu ano só começa quando passa fevereiro”.

Desproporcionalidade da rotina, porque a diferença entre o prazer desses nossos “respiros” de carnavais e outras micro-férias não se compara à massiva morosidade da vida de muitos de nós. É certo que o lazer é limitado, o trabalho é cansativo, o dinheiro é curto, a inflação é pesada. Mas boa parte do povo brasileiro aprendeu a viver um Carpe septimana vergens (“Aproveite o fim-de-semana”), porque o resto dos dias passa mais rápido que frente fria em Fortaleza.

E sentido, não porque essa época o forneça, mas porque o desejamos.

Cristo certa vez contou a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32), que decidiu tornar sua vida um imenso Carnaval às custas do adiantamento da herança paterna. Após gastar tudo e chegar numa situação não tão agradável (de comer com os porcos), resolveu retornar ao antigo lar, onde foi muito bem recebido.

O filho pródigo procurava um sentido? Na verdade, procurava alegria longe de sentido. Ao máximo tentou se resguardar de tudo que pudesse lhe informar: “Existe mais que isso.” Procurou mais para querer menos, mas, no fim, seu desejo pela simplicidade da casa do pai mostrou que precisava de menos para tornar-se mais.

É aqui que a desproporcionalidade da rotina e a necessidade de sentido se juntam: as exageradas loucuras dos carnavais de alguns são apenas um sintoma da desarmonia do brasileiro com a rotina. Toda segunda a mesma imagem no Facebook de algum animal de cara triste e a legenda “primeiro dia da semana” ou “a semana só deveria começar na terça”. Toda sexta o mesmo gif de personagens de Friends brindando ou de um cachorro pulando e dizeres como “Chegou o fim de semana!!!”.

Segunda-marasmo-sábado-festa-repete.

A insatisfação se mostra pela ausência de um sentido maior do que aguardar o próximo tilintar de um copo de shot numa madrugada que acaba mais rápido que caixa de Bis. Sobram cinco dias que se arrastam mais lentamente que fila de clínica (não sei por que hoje estou cheio de metáforas).

É claro que não há erro em festejar, não há pecado em simplesmente se divertir. Só é muito bom conhecer a razão do riso.

De qualquer forma, na minha experiência pessoal, não tem balada ou pré-Carnaval que divirta mais que um São Geraldo com os amigos por meia hora de uma quarta-feira, uma conversa no intervalo da faculdade comendo salgado de queijo ou uma reunião nostálgica de velhos amigos de escola.

O ser humano é chamado a aproveitar cada momento, pois qualquer segundo de sua existência é uma dádiva que merece agradecimento e apreciação. Cada detalhe da vida, cada erro e acerto, cada amigo, cada briga resolvida, cada talento, a capacidade de trabalhar, o fato de termos um sustento, ou o fato de estarmos ali, naquela hora, podendo observar tudo que o mundo é — tudo isso é um chamado a apreciar aquela centelha da eternidade.

Enquanto buscamos plenitude na nossa própria satisfação, em pedaços de nossa vida feitos pra justificar os outros dos quais nós não gostamos tanto, vivemos alternando entre estradas imateriais sem compreender que todas têm um mesmo destino vazio. Sem perceber que às vezes o caminho é voltar, é fazer morada e não peregrinar, somos todos pródigos em festa.

Para aquele que tem a esperança na eternidade, cada alegria é uma pitada do que está por vir, e cada tristeza um lembrete do que será apagado. Assim, não somos chamados a aproveitar o dia, o fim-de-semana e nem mesmo o momento somente pelo momento. Tudo isso é uma soma que nos leva à apreciação do todo que nos foi dado. É o nosso Carpe aeternitatem. [1]

[1] O conceito e a abordagem do Carpe aeternitatem em oposição (ou, digamos, complemento) ao Carpe diem não veio de mim, mas foi inspirado no excelente texto O Sentido da Vida de Ricardo Marques (vulgo meu pai) neste mesmo blog, 8 anos atrás.