Cotidiano e Fé

Fazer x ser

Nós temos uma sede insaciável pelo fazer. Fazer coisas nos faz bem, infla nosso ego, nos torna populares, nos traz uma boa sensação de que nossa vida não passou despercebida, nos dando assim um senso de valor. Nos orgulhamos de fazer, construir e falar daquilo que fizemos e de como isto não é comum a todos. Gostamos de testemunhar e falar de nós mesmos.

Gostamos de ter a vantagem sobre os outros, naquilo em que realizamos, seja doar roupas velhas para um orfanato ou visitar presos semanalmente. Estes fazeres, sempre nos trazem uma boa sensação, afinal, estamos “fazendo a obra do Senhor” e nesta estrada podemos percorrer vários quilômetros, podemos correr maratonas e mais maratonas, para que no final o gosto de superação nos deixe orgulhosos de nossa grande proeza e obra. “Superei meus limites “. – Posso todas as coisas, assim pensamos. Nisto, somos especialistas. Nossa religião logo aflora numa competição bélica de várias coisas que fazemos para o “senhor “(nós mesmos)

Se formos indagados sobre boas obras, temos uma longa lista que orgulhosamente mostraremos. Temos tudo anotado. Isto nos dá segurança. Nos aprova, dá sentido a vida.
Queremos fazer! Fazer para ser ou por sermos? Eis a questão! O fazer para ser é a grande tentação dos dias atuais. Nunca o altruísmo esteve tanto em evidência como nestes tempos. Apelos para fazer o bem, organização de grandes ações pelo próximo, pelos animais, pelos perseguidos, pelos presos. A coisa nos envolve tanto que podemos nos unir e cantarmos juntos o trecho da música Imagine de Lennon: IMAGINE UM MUNDO SEM RELIGIÃO, IMAGINE NÃO HAVER CÉU OU INFERNO, IMAGINE NÃO HAVER PAÍS…Imagine uma torre sendo construída, é isto que essa música traduz, um grito de autonomia e liberdade, uma rejeição direta a Deus, como um convite a construção de uma nova Babel, onde todos possam estar “seguros nela, ou seja, mais uma vez o fazer aparece como prioridade para dá sentido a nossa existência, pois naturalmente fazemos isto. Esta é a nossa religião. Queremos fazer o bem. Queremos nos mover para o outro, não por ele, mas no fim, para nosso próprio benefício, isto nos faz ser humanos. Nos faz ter algo pelo que viver. Queremos e gostamos de fazer obras, esta é a nossa religião mais antiga, Fazer!

O fazer não exige crença em nada pois ao fazermos algo por alguém, ficamos felizes conosco. Auto realizados e orgulhosos. Não precisamos de Religião ou Deus. No Evangelho de João, 6:28, Cristo é questionado:
Queremos fazer a obra de Deus, o que devemos fazer? Parece uma boa pergunta. Altruísta, compassiva e cheia de entusiasmo. Mas, o fazer por fazer é egolatria e jesus sabe disto, por isso Ele traz uma resposta surpreendente:
Esta é a única obra que Deus quer de vocês: creiam naquele, que Ele enviou.
Oi???o quê??? Nós queremos fazer boas obras. Queremos salvar o mundo. E o Senhor nos diz que Deus exige de nós crença? Fé em Cristo?
Isto mesmo. Esta é a maior obra que podemos realizar, crê em Cristo.

O crer em Cristo nos faz retornar para a fonte. Nos leva para a saciedade da alma. A busca do fazer pelo fazer é um reflexo de como nos distanciamos daquilo que fomos criados para ser. Isto nos traz alienação e a busca por uma existência que faça sentido. Jesus nos aponta para aquilo que precisamos. Dele! Mais a frente ele diz que é o pão que veio do céu. Quem comer dele nunca mais terá fome.

O clamor de Cristo é para que nos saciemos Nele. Pois o fazer por fazer, só nos trará mais fome. O crer Nele, nos saciará e o fazer passará a ser adoração a Ele. Oferta agradável a Ele, sacrifício vivo e santo a Ele.

Deus nos fez pra ele e como disse Agostinho: “ Nossos corações só irão descansar quando nos voltarmos para Ele”. Quando isto acontecer, o fazer transbordará com ações de graça e já não precisaremos buscar o sentido da vida, pois Em Cristo teremos sentido. Ele será nosso existir!

Imagem de Nick Fewings