Cotidiano e Fé

Enquanto observamos tudo desvanecer

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Longevidade é algo que almejamos. Menos bacon, mais multivitamínicos, e os supostos ignorantes permanecem semi-deitados em sofás afofados, com seus hambúrgueres e controles remotos à mão. Mas não importa o quanto alguém se esforce para viver — ou o quanto outros se esforcem em manter alguém vivo —, da hora da morte não se escapa.

A morte dos bons revela a estranheza da vida seguindo seu curso para os maus — da nossa perspectiva. Desde Davi nos Salmos, e, na verdade, provavelmente antes já se reclamava desse paradoxo.

Meu avô faleceu na semana passada, com um câncer de próstata e direito a metástase na coluna, nos pulmões e sei lá mais onde. Ele sentiu dores excruciantes por duas semanas numa cama de hospital, depois de passar mais algumas semanas sofrendo uma imensidão simplesmente para se levantar, ir ao banheiro ou trocar de posição durante cada uma de várias insônias.

Todo grito era um atentado à minha inocência de garoto, já que meus 22 anos pouco fizeram para me preparar para os inúmeros choques de um mundo com ilimitadas possibilidades para surpreender.

Quem pode entender? É tão crua a forma como as coisas acontecem na vida real! Não há glamour. O sangue não cai em câmera lenta, a doença não parece uma luta gloriosa e o suor não deixa ninguém mais imponente. Não existe a certeza de que tudo acaba bem no fim — e, até no refúgio do cinema, parece que não há mais essa certeza como antes.

Aprecio quadrinhos. Prefiro não ser privado plenamente da realidade, então gosto quando o fantástico vira desculpa para retratar a própria natureza humana, criticá-la, explicá-la e repensá-la em sua imperfeição.

Mas, quando a tristeza circunda a minha mente, há vezes em que desejo que o Comics Code volte a ser aplicado e tudo tenha que ser bonitinho. Que voltemos aos anos 60 e, pelo menos nos gibis, não existam mais brigas, mortes violentas, crimes, sofrimento, vícios…

Por um segundo, desejo que um super-herói poderoso chegue destruindo a parede do hospital e utilize alguma mística maluca ou habilidade extraterrestre para olhar no coração de um homem bom e expurgar os tumores de suas entranhas.

Mas não há super-heróis aqui. A realidade é observar que até a beleza do amor familiar se macula com a dificuldade de, após 56 anos de casada, uma certa senhora ter que levantar seu marido para banhá-lo, porque as costas dele não aguentam mais que ele se levante sozinho, sendo que as costas dela também não aguentam levantá-lo muito bem.

Ela agora sentia suas dores, a cada dia, quando ia levá-lo a qualquer cômodo que fosse. Ela sentia suas dores quando dele cuidava e com ele chorava. E ele sentia duplamente as próprias dores, porque, além das físicas, havia a dor de causar dor a outros.

Eu vou sumindo, olhando e sumindo.

Enquanto observo tudo desvanecer, dou uma rápida olhada no futuro e existe um pequeno brilho na ponta de uma caneta. Eu escrevo para me distanciar da realidade sangrenta que me ataca sem cerimônia. Tudo que eu conhecia não significa mais nada. Tudo que eu era é só uma névoa distante no fundo de uma mente distorcida. Minhas memórias passam como brisa, vêm e vão diante dos meus olhos, mesmo enquanto estão fechados.

Não sou só eu que escrevo. Nas palavras de Frusciante: “tudo se perde conforme passa”. Nas palavras de Salomão: “uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece”. Há muito mais palavras por aí, mas nem todas são as palavras certas.

Deixamos as coisas passarem todos os dias. O vento balança meus cabelos pra cima e pra baixo com gentileza, só o suficiente pra lembrar meu corpo que possuo ainda algum tato e que estou presente neste local. Penso, existo, mas não insisto muito em fazê-lo neste segundo. A noite já chegou faz tempo e o relógio no canto do computador me lembra que amanhã de manhã, às 6h30, preciso colocar uma gravata e sair, metade sonâmbulo.

Onde estou?

Já é de manhã e me atrasei.

Minha vida está um pouco atrasada, mesmo. Talvez demorando eu me iguale a ela. Cheguei onde estou sem nem perceber, mas poderia ter aprendido mais antes de estar aqui. Poderia ter aprendido menos também, então entenderia menos o que acontece.

Diante da desgraça, porém, não consigo me impedir de segurar-me na fé. Não consigo deixar de ver beleza em todas as coisas. Nas consequências de cada ato, nos supostos acasos, nas tristezas, no sofrimento que tanto rasga como repara, que tanto machuca como ensina. Sobriamente me volto para a esperança como se ela nunca tivesse saído de mim.

Me sinto o Will Smith em A Beleza Oculta, vagando até encontrar a alegria no meio da escuridão. Mas, diferente dele, não sou acompanhado por manifestações visíveis de princípios básicos da vida humana. Não há seres cósmicos me explicando cada passo que devo dar. Mas encontro sabedoria em Palavras do passado que me ensinam sem precisar ouvir meu interlocutor ao vivo. Se bem que O escuto, mesmo no silêncio.

Eu sei onde estou.

Continuo me vendo sumindo. Continua tudo indo embora. Só que um novo eu se forma. A cada rio cruzado, a cada pedra virada, me refaço, translúcido que sou, os outros vendo através de mim e vendo o que há em mim.

Sou agora tudo o que já foram antes de mim. Sou agora soma de vontades, de desejos, sentimentos, prazeres. Sou forma nova trazida à existência com propósito. E sei o propósito do que houve e do que há.

Ao contrário do que disse o poeta, não é sempre melhor queimar do que desvanecer. As coisas perecem devagar para nos dar tempo de apreciá-las, sofrer por elas e ressignificá-las. Superá-las. Enquanto outras se acabam, outras surgem.

É sofrendo que me torno, que me faço. Para ser moldado é preciso ser quase derretido. Sofrendo que aprendo o que ninguém mais quer aprender, pois quer viver sem sofrer. Sofrendo que me alegro, no final de tudo. É um paradoxo, eu sei. Não espero que todos entendam. Só peço que vejam, e saberão.

O sofrimento é o megafone de Deus, disse C. S. Lewis. Enquanto observamos tudo desvanecer, talvez seja hora de apurar os ouvidos.