Cotidiano e Fé

A herança do mártir

Até agora, o que escrevi no blog foi para expor reflexões que servem a diversas pessoas ou para ressaltar alguns aspectos do Cristianismo e da filosofia que oferecem respostas a uma sociedade bastante “esculhambada”, como um bom cearense diria.

Sem deixar essas questões de lado, resolvi falar de alguns assuntos que podem incomodar, especificamente, alguns de nós mesmos, os cristãos. Ao longo do tempo, vamos nos acostumando a tradições humanas, culturas e sistemas que nem sempre representam aquilo em que acreditamos. Passamos, então, a misturar nossas crenças e deveres morais com opiniões e absolutizamos tudo igualmente, criando um emaranhado difícil de desvencilhar.

Para começar, falo de um assunto que é uma pedra no sapato de muitos crentes: coletividade.

É engraçado pensar nisso, considerando que o Cristianismo é, por mandamento, uma religião altamente relacional. Mas, por algum motivo, muita gente insiste em caminhar na fé sozinho, isolado, cuidando de si mesmo, sem viver com e para os outros. É claro, também ocorre o contrário, quando alguém está tão imiscuído na vida ministerial que perde sua individualidade. Transforma-se no grupo, respira a comunidade, mas despenca, caso seja decepcionado por ela de alguma forma. E a Igreja é feita de humanos, não é?

Uma das coisas mais lindas do Cristianismo é precisamente o equilíbrio perfeito daquele que deu nome à religião. Cristo demonstrou que, em certos momentos, o melhor é vigiar, é estar sozinho, orando, conversando com Deus e sentindo Sua presença de forma pessoal. É entender que palavras humanas não podem resolver algumas coisas e que a presença do Altíssimo tranquiliza e toca a alma de um modo que ninguém mais pode.

Noutras horas, entretanto, é preciso entender que o ser humano é um ser social (como afirmou Tomás de Aquino), um animal político (como falou Aristóteles) — e, feito para a sociedade, necessita compreender como viver em comunhão, como exercer a coletividade e fazer parte de uma identidade que é mais do que várias pessoas juntas num lugar ou que pensam parecido.

Aliás, a sociabilidade e a capacidade de alteridade do homem, de exercer tolerância e até empatia, é que tornam possível o Estado democrático e impedem a perpetuação da Guerra, pois o homem, seja na Igreja, seja na sociedade, precisa aprender a conviver com o diferente. No entanto, alguns cristãos contemporâneos simpatizam com o ideal de vida egoísta, do indivíduo que pensa em si e nos seus, adotando uma cosmovisão deturpada que o afasta da expressão sacrifical do amor.

Normalmente, isso acontece como uma espécie de efeito backlash — em termos simples, uma reação política extremada a um pensamento oposto. Funciona assim: já que há um crescimento estrondoso do marxismo como cosmovisão vigente no ambiente acadêmico e cultural contemporâneo, é natural que aqueles contrários se organizem de modo mais veemente e exagerado do que comumente poderiam fazer, gerando uma ideologia oposta que pode ser igualmente prejudicial.

O marxismo clássico é uma corrente de pensamento que perpassa política, economia, sociologia, filosofia e até religião. Ou melhor, nega a religião, tratando-a como um dos fatores a serem eliminados em prol de uma sociedade igualitária. Prega o materialismo, a atenção à realidade fática, observável e às formas de ação dentro dela. Exclui a transcendência e a eternidade. Além disso, constrói uma identidade coletiva que define o homem, subdividindo a humanidade pela classificação socioeconômica dos grupos: os proletários, a burguesia etc.

Como essa estrutura filosófica vai de encontro ao Cristianismo, é natural que os mais fervorosos se apeguem a filosofias opostas, que ataquem vigorosamente as ideias marxistas. No entanto, é aí onde reside a armadilha: fugimos do coletivismo extremo para o individualismo sem medida. Acreditar que o inimigo do meu inimigo é meu amigo é uma falácia há muito refutada, que o digam os EUA sobre a União Soviética, seu maior rival após a Segunda Guerra.

Para ilustrar como o materialismo não é privilégio de Marx, tampouco da “esquerda”; ou dos coletivistas, basta lembrar de quantos o advogaram como pressuposto filosófico. Por exemplo, Auguste Comte era um severo defensor do altruísmo, sendo responsável por cunhar o termo, expressando a máxima “vivre pour autrui” (viver para os outros). Era ateu e materialista.

Por outro lado, o individualismo, mais que certamente, não é ideia dos cristãos.

Ayn Rand, filósofa russa que viveu nos Estados Unidos em meados do século XX, foi uma das grandes pensadoras a firmar ideais de uma filosofia moral do egoísmo. Segundo Rand, a vida do homem será mais feliz se ele pensar primeiramente na satisfação de suas necessidades e vontades, desde que respeitando os direitos e a autonomia dos outros.

Embora perspicaz em sua abordagem, Rand rejeitou o tradicional valor do altruísmo. Por conseguinte, expressamente declarou a falência do Cristianismo e de qualquer modelo social, político, filosófico ou religioso que se fundasse na abnegação e no sacrifício.

Importante: o Cristianismo foi rechaçado, em grande parte, porque, para a filósofa, este persistia num ideal débil de martírio, de entrega, de vida em prol dos outros. Para Rand, uma inegável materialista (ou objetivista, em seus termos), o que interessa é o mundo real e presente, de modo que investir na própria infelicidade e miséria para favorecer os demais seria uma idiotice.

Assim sendo, pouco importa quem falou o quê, no fim das contas. Diversas pessoas, de variadas opiniões políticas, já defenderam tanto o coletivismo como o individualismo, tanto o egoísmo quanto o sacrifício.

Mas o que disse Jesus?

O Cristianismo não é individualista. Ele dá individualidade a cada um, mas é comunitário. O lema da minha congregação é “Amar, relacionar, proclamar”. É uma máxima que se repete, pois se entende que “não se vive Cristianismo sozinho”. Ao menos, ele não é feito para isso. Claro, às vezes não há escolha…

Não espero que um missionário ou um cidadão, numa aldeia isolada ou num regime totalitário que criminalize a religião, se preocupem em estar rodeados de irmãos na fé, a todo momento, para compartilhar os pequenos detalhes de sua existência e emoções. Mas essas são circunstâncias específicas, muitas vezes relacionadas a propósitos maiores.

Basta perceber que, ainda assim, o missionário vai a esses lugares com o objetivo de mostrar o amor de Deus para… os outros!

Afinal, um dos primeiros mandamentos de Cristo aos seus seguidores foi que fossem pelo mundo e proclamassem, tocando outras pessoas. Foi o ide: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mt 28:19-20).

E ainda: “…sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra!” (At 1:8).

As palavras de Jesus costumavam falar muito ao coletivo. Nosso propósito na Terra, como filhos de Deus, é proclamar sua paz, sua graça, sua salvação e sua verdade. É alcançar pessoas e multiplicar alegria. Não podemos nos dar ao luxo de nos escondermos em nossos casulos, em nossas celas a que chamamos quartos, limitando-nos a reclamar nas redes sociais e andar todo dia pensando só no dinheiro e nos bens de nossas famílias.

Cristo também valorizava o povo e exaltou a ideia de irmandade entre os seres humanos. Sentia compaixão das multidões (Mt 9:36) e andava frequentemente acompanhado dos apóstolos. Paulo reforçou essa questão ao declarar, na carta aos Romanos, que somos um corpo em Cristo: “Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e todos os membros não têm a mesma função, assim também nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada membro está ligado a todos os outros” (Rm 12:4-5).

A sabedoria de Paulo continua, em sua primeira epístola aos Coríntios, explicando, melhor do que ninguém, a necessidade de união e interdependência entre os indivíduos:

“E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Sendo assim, há muitos membros, mas um só corpo! O olho não pode ordenar à mão: ‘Não tenho necessidade de ti!’ Tampouco a cabeça pode declarar aos pés: ‘Não preciso de vós!’ Ao contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são essenciais; e os membros do corpo que julgamos serem menos honrosos, nós mesmos os tratamos com maior honra.” (1 Co 12:19-23)

O cristão genuíno é aquele que vê empaticamente, olha os outros com os olhos de Deus, entendendo que cada ser humano é dotado de dignidade e especial relevância na criação. Não somos todos imagem e semelhança de Deus? Ou só você e sua família são?

“Desse modo, quando um membro sofre, todos os demais sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se regozijam com ele.” (1 Co 12:26).

De nada vale alcançar a “iluminação”, ser o maior teólogo de todos os tempos e não ter compaixão de uma criança miserável sentada na calçada numa noite gelada.

Pense: do que lhe adianta ter tudo?

Se “não tivesse amor, nada seria” (1 Co 13:2), repetia Paulo. O amor se exerce para o outro. Não há amor na solidão, tanto é que até o Deus bíblico é triuno. Um em três, a Trindade, o amor que existia antes da criação.

Por fim, lembremos uma última vez do maior exemplo de reditão — e de altruísmo: Cristo. Ele não apenas falou sobre amor, cura, liberdade, união… Manifestou o Amor, aquele que se consubstancia no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Manifestou-o na cruz. No sacrifício. No martírio.

O medo não o impediu. O egoísmo não o impediu. A autopreservação não o impediu. A individualidade não o impediu. A morte não o impediu. Cristo abraçou o martírio, sofreu sem merecer e deu vida ao mundo.

A partir de seu exemplo, muitos morreram pela fé, por outros e por causas maiores que um indivíduo. Para um materialista, isso pode não fazer sentido. Muito melhor seria que ele aproveitasse sua vida terrena. Para um objetivista, isso é um absurdo. Entregar-se pelos outros não seria uma boa escolha.

Bem, não sou um materialista. Não sou um objetivista. Não sou um individualista e não sou um coletivista. Sou um cristão. Para mim, a expressão do amor é também sacrificial.

Essa é a herança do mártir.