Cotidiano e Fé

Pobreza e justiça

Nas Escrituras Sagradas a pobreza é citada mais de duas mil vezes. Isso nos faz crer na preocupação de Deus com os pobres. Mas, a preocupação divina associa essa questão
à justiça ou a sua falta. Em qualquer parte da Bíblia, o amor de Deus pelos pobres e o desejo de justiça é facilmente encontrado.

No Brasil, quando pensamos em população pobre, vem em nossa mente a imagem do sertanejo nordestino. E existem motivos para isso, afinal, no Nordeste brasileiro, 9,4%
da população é composta por pessoas extremamente pobres, ou seja, sobrevivem com até R$ 85,00 por mês. No entanto, a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios
(PNAD) concluiu que mais de 24 mil cearenses saíram da extrema pobreza.

A notícia soava como algo para ser comemorado e, de fato, foi isso que o governador do Ceará, Camilo Santana, fez. Comemorou a redução de 3,57% de pessoas que ganham até R$ 85,00 por mês.

Daí, fiquei pensando sobre esses miseráveis que sobrevivem não mais com os R$ 85,00. Talvez agora, tenham aumentado em 100% os seus rendimentos ou, quem sabe, até mesmo 200%. Todavia, isso não os retira da condição de miseráveis.

Também pensei no restante da população que ainda sobrevive com até R$ 85,00 por mês. São 730.794 pessoas, representando 8,1% da população cearense e, a partir
desse ponto, entra o outro tema que a Bíblia associa ao falar sobre pobreza: justiça.

Ao comemorar esses números, o governador ignora as condições de vida dessa população de pobres e se mostra totalmente indiferente a essas pessoas que acordam
cada manhã sem saber se terão algo para comer no almoço; frequentemente vão dormir com fome e as refeições que conseguem obter são desequilibradas e pouco saudáveis.

Na sua justificativa, o governo atribui o “bom” resultado às políticas de acolhimento aos jovens das escolas públicas, de geração de oportunidades e empregos,
esquecendo-se de que, conforme os dados divulgados pela mesma pesquisa, o Ceará tem 1.006.020 (um milhão, seis mil e vinte) pessoas com mais de 15 anos analfabetas,
colocando o estado na terceira posição no ranking nacional do analfabetismo.

Percebe-se, então, que esses milhares de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, além de outros milhões que vivem na pobreza, são pobres não porque Deus
assim quis (como alguns políticos e alguns religiosos cinicamente propagam em suas retóricas falaciosas), mas devido à privação de fazer escolhas por si mesmas, como a
escolha de receber educação, ter saneamento básico, receber água limpa e tratada, estar livre da violência, ter assistência médica de qualidade e outras mais.

Acredito que, quando Deus fala de pobres e de desejo de justiça, Ele fala desses pobres. Em Mateus 25:40, Jesus diz: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quando
vocês fizerem isso ao mais humilde dos meus irmãos, foi a mim que fizeram.” E em Mateus 25:45, Ele reafirma: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: todas as vezes que
vocês deixarem de ajudar uma dessas pessoas mais humildes, foi a mim que deixaram de ajudar.” Portanto, esses são os pobres que estão no coração de Deus e deveriam
estar no nosso também.