Cotidiano e Fé

Melhor é dar que receber: um relato de experiência.

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Deus tem me desafiado a estar em lugares onde ninguém quer estar: presídios; espaços onde existe violência e onde ela deixa marcas profundas e irreversíveis e também em meio à sujeira deixada pelos traços fortes de uma desigualdade que ultrapassa a esfera social e alcança o espiritual das pessoas, porque fere a dignidade e a essência do seu ser.

Entendendo que espiritualidade não diz respeito à religiosidade, mas a uma força motriz capaz de tornar as pessoas mais humanas e aptas a desfrutar de todas as dimensões da vida, levando-as a dedicar mais amor pelos outros, mais sensibilidade, renúncia de si mesmo e coragem para lutar.

E o que tenho percebido?

1. Se não fosse o fato de eu ter entendido que a Graça de Deus foi derramada sobre a minha vida e que ela não depende em nada do que eu faço ou deixo de fazer, eu poderia estar do lado de lá, atrás das grades daquelas prisões e ao lado daquelas mulheres.

2. Mesmo em meio à culpa e angústia de um futuro incerto, pode existir liberdade. É possível olhar para
aquelas mulheres e enxergar uma alma livre, porque entendeu o fato de a liberdade estar em encontrar a paz que excede todo entendimento: Cristo Jesus.

3. Mesmo atrás das grades de uma prisão é possível enxergar o amor e a esperança nos olhos de mães que acabaram de dar à luz, ninando seus filhos e amparando-os em seu colo ou daquelas que ainda estão esperando para conhecer as feições dos seus. Vejo, ainda, o receio de findar o período de amamentação e ter seu filho afastado dos seus braços.

4. É possível ouvir mulheres em privação de liberdade entoando louvores a Deus e me arrepiar ouvindo aquele som ecoando pelos corredores de uma prisão.

5. Apesar de muitas não desejarem mudança, eu tenho a certeza de que a semente foi jogada e que, no tempo certo, alguém passará jogando água, outros adubarão e, mesmo que eu nunca tenha notícia, alguém poderá fazer a colheita.

6. Vidas podem, verdadeiramente, ser restauradas.

Daí você pode me perguntar:
– Mas, e se nada acontecer? E se o número de pessoas que mudar for pequeno?
Eu respondo:
– Já terá valido a pena se, em um dado momento, mesmo que seja uma única vez, um assalto for freado ou uma vida for poupada porque alguém lembrou de uma palavra que foi ministrada.

De duas coisas eu sei:

I) a palavra não volta vazia

II) viver precisa ser Cristo e morrer deveria ser lucro.

 

Hoje, tenho dois desejos em meu coração:
1º) Que a mensagem de Jesus registrada no evangelho de Mateus, capítulo 25 e versículos 35 e 36 (Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era estrangeiro, e me receberam na sua casa. Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim. Estava na cadeia, e foram me visitar), seja algo concreto na vida daqueles que querem ser imitadores de Cristo, para que mais pessoas (famintas, sedentas, estrangeiras, nuas, enfermas, doentes e presas) sejam alcançadas por essa Graça gratuita e inegociável capaz de suprir necessidades e de atribuir às pessoas um sentido para seu viver.

Nietzsche já dizia que “…quem tem um por que viver pode suportar quase qualquer como.” (FRANKEL, Viktor. Em busca de Sentido. Editora Vozes, 35ª edição). Eu realmente acredito que, quando aquelas pessoas encarceradas encontrarem um porquê, suportarão quase qualquer como, desde lutar cada combate pessoal até transcender cada barreira, porque entenderão que existem para cumprir um propósito.

2º) Quando minha vida acabar, que ela tenha tido alguma relevância para alguém, seja quem for. Não para ter um nome reconhecido, mas para que uma vida tenha sido alcançada e, quem sabe, até transformada porque um dia eu resolvi dar de graça a GRAÇA que de graça eu recebi.

Você e eu estamos desfrutando da liberdade; sendo assim, a pergunta que não quer e não pode calar é: o que temos feito com essa liberdade? O que estamos fazendo com a superabundante graça que nos alcança todos os dias?