Cotidiano e Fé

Relacionamentos superficiais

Não é raro andarmos em algum local e nos depararmos com alguém no celular: numa ligação, nas redes sociais, na videochamada, no e-mail etc. As redes sociais, que eram ferramentas para melhorar nosso cotidiano e para facilitar as coisas em algumas áreas, principalmente no trabalho, tem sido uma armadilha para nós. Parece que tudo perdeu o prazer de ser visto e vivido, porque a único coisa que importa é uma luz no rosto, a vibração do celular ou um momento de prazer rápido.

Estamos muito propensos a ter o que desejamos mas mãos de forma muito rápido! Aliás, velocidade é o que mais queremos quando nos referimos ao celular. Mas, onde estão os relacionamentos intencionais e pessoais? Ou melhor, onde estão os relacionamentos presenciais?

Perdemos o real significado da palavra “limites”, pois em vez de vivermos momentos relacionais, acabamos levando o trabalho para diversas áreas. Misturamos tudo. No livro de Eclesiastes 3:1 está escrito que há tempo para todas as coisas debaixo do céu.

Ah, aquele bate-papo na cafeteria, um cinema na companhia de alguém que você ama, uma recepção em casa para aquela amiga de longa data…!!
Na minha caminhada acadêmica, tive o privilégio de cursar por, num curto período de tempo, o curso de Libras. Nesse curso, pude perceber o quão introvertida e falha na comunicação eu era, não porque não soubesse a linguagem de sinais, mas porque minha rotina estava tão doida que eu não fixava os olhos em quem estava na minha frente.

Sabe por que eu digo isso? Eu estava muito acostumada a ter momentos rápidos de conversa, sempre muito direta. Começa aqui e termina aqui, pronto. Relacionamento com pessoas? Sem tempo. Precisava trabalhar.

Foi então que Deus falou comigo através da comunidade surda!
A linguagem de sinais exige um pouco mais da nossa atenção. Precisamos parar, olhar o sinal e interpretar qual a mensagem que aquela pessoa quer transmitir. Além disso, quando eu ia me comunicar com um surdo, além dos sinais era necessário olhar para ele e ser bem expressiva. Sabe por quê? Sem a minha expressão facial, alguns sinais não seriam compreendidos por ele.

Isso foi muito impactante para mim!!!
Percebi que eu preciso de pessoas, preciso de olho no olho, preciso de abraços e palavras. Eu preciso de gente, nós precisamos. Alguns de nós tem dificuldade em se relacionar com outras pessoas, talvez por ser tímida como eu ou talvez por achar que vão te julgar por algum coisa. Zygmunt Bauman dizia: “Tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”. Perdemos a pessoalidade do todo e isso é muito sério.

Vivemos em uma liquidez tão grande, que tudo é muito vão e rápido. Pessoas e pessoas passam por nós todos os dias. Históricos familiares diferentes, vidas diferentes, alegria diferentes, trabalhos diferentes. Sabe aqueles pacotinhos de M&M que são todos coloridos, mas ficam na mesma embalagem?Assim somos nós, todos diferentes, mas vivemos em um mesmo lugar. Temos uma riqueza cultural, intelectual e social muito grande. Por que fechamos nossos olhos para isso e tapamos os ouvidos? Encorajo você a viver relacionamento intencional e pessoal. Não falo como alguém supermega relacional, mas falo como alguém que, por muitos anos, foi resistente a viver relacionamentos e que hoje, vivendo em comunidade, sei o quão prazeroso e rico é para a minha caminhada. Caminhar com pessoas é bom demais!