Cotidiano e Fé

Ele está em tudo

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“Então Jesus exclamou, uma vez mais, em alta voz e entregou o espírito. No mesmo instante, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra estremeceu, e fenderam-se as rochas.” (Mateus 27:50-51)

Ao contrário da suposição farisaica de tempos idos, a nova aliança que Cristo desenhou em sua (primeira) vinda nos explicou uma coisa muito importante: Deus não tem casa.

Na cultura judaica, o templo e o tabernáculo foram elementos fundamentais da relação com o divino. Não havia pessoalidade, intimidade, na maioria dos casos. O povo possuía um representante, fosse um grande líder, um sacerdote, um rei, que tinha um contato especial com o tal Jeová e relatava sua vontade aos demais. Por vezes, o pecado do líder era tratado como o pecado da nação e vice-versa.

Mas muitos desses líderes, corajosos o suficiente para buscar intimidade com o Senhor, começaram a entender um pouco mais sobre como Ele funciona, mesmo que não houvesse ainda a revelação completa. Um exemplo foi Moisés, que era amigo do Deus vivo, de bater papo e até reclamar para Ele, tamanha a sinceridade.

Algumas vezes esses líderes manifestavam a vontade de dar a Deus um lugar especial, mas, embora isso costumasse ser aceito por questões culturais, desde essa época já estava ficando claro que o plano divino não era esse.

É (também) por isso que disse Deus a Davi, quando manifestou sua vontade de construir uma casa grandiosa para o Senhor:

“Não será você quem vai construir uma casa para eu morar.
Não tenho morado em nenhuma casa, desde o dia em que tirei Israel do Egito, mas fui de uma tenda para outra, e de um tabernáculo para outro.
Por onde tenho acompanhado todo o Israel, alguma vez perguntei a algum líder deles, a quem ordenei que pastoreasse o meu povo: Por que você não me construiu um templo de cedro?” (1 Crônicas 17:4-6)

Mais tarde, Ele até permitiu a Salomão, filho de Davi, construir-lhe um grande templo, pois não tinha as mãos sujas de sangue. Mas aqui já se evidenciava a vontade do Senhor de ser reconhecido pelo coração e pela conduta de cada um dos seus filhos, em vez de por construções majestosas.

O Altíssimo já dizia há tempos: “E habitarei entre todos os filhos de Israel e serei para eles Deus” (Exôdo 29:45). Não desejava habitar num templo, numa cabana ou num palácio, mas entre todas as pessoas, no meio delas, perto, junto delas, sem intermediários.

Manifestava cada vez mais o Senhor essa vontade de ser adorado de forma sincera, de ser reconhecido pelo amor de seus servos, não por ritos: “Pois desejo misericórdia, não sacrifícios, e conhecimento de Deus em vez de holocaustos” (Oséias 6:6).

Paulo, o último apóstolo e um dos primeiros teólogos, usou suas cartas para trazer à luz muitas interpretações das palavras do Velho Testamento em harmonia com os dizeres de Cristo. No assunto do templo, não foi diferente, explicando:

“Mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens, como diz o profeta:
O céu é o meu trono,e a terra o estrado dos meus pés.Que casa me edificareis? diz o Senhor,Ou qual é o lugar do meu repouso?
Porventura não fez a minha mão todas estas coisas?” (Atos 7:48-50)

E mais: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3:16)

A conclusão, enfim, surge: Deus está em tudo. Em todos os lugares.

Ele está na igreja, sim, no sentido de construção mesmo. No auditório com cadeiras de plástico, na tenda ao ar livre, no pequeno local de adoração sem teto, de cerâmicas quebradas, e naquele templo sagrado, com colunas brancas e cortinas douradas.

Ele está nas florestas, nas vegetações, nos pássaros, nas estrelas, nos rios. Ele está nos restaurantes, nos bares, nas lanchonetes, nas boates. Ele está no lixo, nos becos, nas avenidas, nos bairros ricos e nos miseráveis.

E outra descoberta inesperada: Deus está em todas as pessoas.

Ele está na Igreja, enquanto corpo, a noiva de Cristo, povo prometido. Corações, vidas, almas.

Ele está naquele cara chato do trabalho que enche o saco com informações sobre a indústria de café polonesa e a trajetória do voo migratório do albatroz. Ele está naquela menina de saia curta e blusa colada que você chama de nomes que não reproduzirei.

Ele está no adicto no meio da rua que mata por uma pedra de crack. Ele está no empresário engravatado que explora as pessoas com um trabalho indigno, bem como no homem de negócios de raro sucesso honesto. Ele está no político, no pedinte, no padre, no carteiro, no assassino, no pastor, na prostituta e em você.

“Afinal, esse autor é panteísta? É universalista? É doido?”, você pode estar se perguntando. De modo algum. Ou talvez a terceira opção.

Deus não está em tudo porque Ele é tudo, mas porque tudo é sua criação. “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.” (Salmos 19:1-3). A maior prova do seu amor, do seu poder e do seu senso artístico, eu diria, é tudo que existe desde que o ser humano chegou aqui. Tudo serve como testemunho da grandeza de Deus, e até as coisas ruins evidenciam a glória das maravilhosas. “Porventura não fez a minha mão todas estas coisas?”.

Deus não está em todos porque todos são perfeitos. Mas porque todos os seres humanos — sim, todos! — são sua imagem e semelhança! Qualquer um possui características únicas, insubstituíveis, de valor intrínseco infinito. Ao mesmo tempo, são dotados de algumas semelhanças que as definem enquanto pessoas: mente, alma e um enorme potencial para glorificar a Deus, mesmo no meio do pecado. Aliás, são todas igualmente definidas pela sua inevitável natureza pecaminosa.

Mas nós, seres sujos, tristes e condenados que somos, fomos escolhidos por Ele para experimentar redenção, restauração e salvação. A partir da cruz de Cristo, não só a salvação se torna gratuita, como a relação com Deus se torna pessoal. Como a citação inaugural do texto sugere, “o véu do santuário rasgou-se” no momento da crucificação. A partir de então, cessaram os intermediários, os sacerdotes e os tabernáculos como obrigações para se falar com o Pai.

A maior herança de Cristo deixada na terra, depois da salvação, foi o Espírito Santo. Este nos permite compreender as escrituras e sentir diretamente o mover de Deus de forma íntima e personalizada.

Nada disso significa a extinção dos grandes ajuntamentos. A Igreja, corpo de Cristo, é composta por vários membros, todos eles coexistindo em louvor harmônico ao Senhor, lidando cada um com os pecados e dificuldades um do outro, buscando o crescimento mútuo. Mas significa que a habitação do Deus vivo não é nesta ou naquela construção, é nas pessoas que o adoram.

E se os outros são, ao mesmo tempo, tão pecadores quanto nós e tão imagem de Deus quanto nós, por que insistir em se achar de algum modo maior ou melhor que eles? Por que não reconhecer a morada de Deus em si e, como ouvi recentemente numa conferência, transmutar um coração de pedra em carne? Assim, quem sabe, outros serão também transmutados por seu testemunho, em vez destinados a queimar por um zelo longe de santo.

Cristo, a pedra angular, vivifica as demais pedras da edificação que é a Igreja: um novo templo gigantesco, feito de carne, osso e espírito.

“Deus não habita mais
Em templos feitos por mãos de homens
Deus não será jamais
Acorrentado às paredes de uma religião
Deus não habita mais
Em templos feitos por mãos de homens
Deus não será jamais enclausurado na escuridão
De quem ainda tem um coração de pedra”

(Coração de Pedra – João Alexandre)