Cotidiano e Fé

Deus me livre dessa fé polarizada

Quem convive comigo sabe da minha fascinação por livros, séries e outros conteúdos que geram um conhecimento maior sobre determinados assuntos. Acredito até que a minha geração (anos noventa) já nasce com uma sede de conhecimento, pois a nossa sociedade vive em uma constante mutação e as pessoas ganharam uma voz mais ativa para expor suas ideias (celebremos a liberdade!) com o advento das redes sociais. Para acompanhar as novidades, você tem que está direto apertando F5 (atualizando-se), pois, de hora em hora, surge algo que vai mudar o “andar da carruagem”.

De antemão, quero deixar claro que nada disso é errado. Pelo contrário, creio que todo ser humano tem prazer em aprender mais sobre assuntos que lhe interessam e aqueles que não têm, bom… é porque buscaram o conhecimento na “fonte” errada e se frustaram diante de algo “tedioso”.

Porém, apresento aqui a minha luta pessoal em usar o conhecimento como uma fuga para a minha omissão diante da realidade. Tenho vivido uma constante busca de equilíbrio no tripé “pensamento-amor-prática”, pois acredito que uma fé saudável tem esse trio como base e, dependendo da vocação, a pessoa acaba dando ênfase a alguma “perna” desse tripé.

Como nem tudo são flores, o ponto negativo de a nossa sociedade ter uma voz mais ativa é a polarização criada: para alguém se encaixar em um determinado grupo, tem que levantar a bandeira A ou B, esquerda ou direita, azul ou vermelho, Ser neutro em questões éticas é sinal de “burrice ou hipocrisia”. Que triste, não?

Infelizmente, a polarização chegou também ao ambiente eclesiástico e conhecer a teoria do tri-perspectivismo (pensar-amar-fazer), elaborada pelo teólogo John Frame, foi essencial para que eu não caísse nesse campo de etiquetar as pessoas de “cristão/não cristão” pelo simples fato de elas terem ênfase, vocação e opiniões contrárias a minha. Consigo sentir a presença de Deus em conversas com irmãos das mais diversas denominações, opiniões politicas, ou até preferências por série (Friends é melhor que HIMYM), pois gosto de pensar que o povo de Deus é um quebra-cabeça no qual cada pessoa é uma peça diferente e juntas formam o Reino!

Entre meus prestadores de contas há estudante de medicina, de psicologia, designer gráfico, vocacionado ao ministério pastoral e um líder do alcance social da nossa
comunidade. Uns tem formação acadêmica e outros não; alguns são mente, outros prática e outros coração.
Quando olho para o relacionamento que há entre nós, lembro da carta de Paulo aos Efésios, em que, no capítulo 4, exorta aquele povo a suportar uns aos outros, mantendo a unidade. Já parou para pensar que você só é exortado a suportar o outro se o outro for diferente de você? E que, portanto, unidade não é uniformidade?

O ensinamento que Paulo levou aos efésios tem mais de dois mil anos, mas o povo de Deus ainda tem engatinhado na busca dessa unidade sem uniformidade.
Sinto angústia em pensar que ainda falta muito a percorrer, mas saber que há um progresso nesse caminho é de encher o coração de esperança, amor e alegria!
Para encerrar, quero deixar duas citações que me ensinam muito na minha luta contra a “intolerância”:

Para nós, os “pensadores” (a mente) são representados pelos reformados; os “emotivos” (o coração), pelas enormes redes pentecostais carismáticas (em
acréscimo, ou – talvez – em substituição ao número decrescente daqueles que se autodenominam “emergentes); e os “fazedores” (as mãos), pelos
segmentos de “liderança” da igreja com orientação mais prática, como a Willow. A questão é que nenhum de nós alcança os cem por cento. Os
verdadeiramente renascidos e unidos em Jesus pela fé precisam uns dos outros. Os pensadores precisam dos emotivos e dos fazedores – como
indivíduos e como grupo. Os emotivos precisam dos pensadores e dos fazedores; os fazedores, dos emotivos e dos pensadores. E, para fechar o círculo, os purificadores precisam dos unificadores e os unificadores, dos purificadores.
(David Mathis. Pensar – Amar – Fazer, ED. Cultura Cristã)

Não se iluda!
Cuide com o que escreve, com o que fala , com o que pensa e com o que faz.
Não se iluda! Quem não respeita ao ser humano a quem vê, não respeita a Deus, a quem não vê. Quem não tem o mínimo de consideração diante da imagem e semelhança do Criador, não tem nenhuma reverência diante de Deus.

Quando falhamos no altar, falhamos na vida. Uma teologia capenga
produz uma ética torta.

Que nosso coração não ouse chegar diante do Senhor, com autoconfiança, orgulho e confiado em nossa própria justiça. Diante do altar e diante da vida, necessitamos da mediação do precioso sangue de Jesus Cristo.
(Ziel Machado)