Cotidiano e Fé

O silêncio que incomoda

Carros buzinam, o chefe grita, as crianças choram, pessoas conversam, o fone de ouvido não para, a TV não desliga, áudios do whatsapp, adolescentes passam fazendo zoada, um vídeo novo no youtube, um forró toca na casa do vizinho. Juntos ou sozinhos não sabemos mais o que é silêncio.

Parar para ouvir o silêncio das nossas próprias cabeças. Parar por um segundo e encarar quem somos. Olhar no espelho e simplesmente perceber nossa alma. Sentar na cama e olhar pra dentro. Sem distrações e interferências. Não porque elas não existam, mas pelo simples fato de ter coragem de se confrontar.

Quem sou eu nesse mundo de barulhos, quando as coisas silenciam?

Silêncio da família quando se precisa de um abraço, dos amigos quando se precisa de um conselho, da sociedade quando a injustiça se faz presente, de Deus quando o chão parece desaparecer. Como lidar com isso?

Nossas vidas são repletas de momentos de silêncio, que tentamos preencher com qualquer barulho. Uma multidão de pessoas, o som do carro no máximo, vídeos motivacionais, conversas quaisquer intermináveis; fugas de nós mesmos. Muitas vezes o mais profundo medo de simplesmente encarar quem somos e o que estamos vivendo.

Vamos preenchendo nossas rotinas, vamos nos preenchendo de pessoas, de coisas que até aparentam fazer sentido, e até fariam, se não fossem mais uma desculpa para se esconder.

Quando confrontamos esses grandes silêncios que gritam dentro de nós é que quebramos nossas máscaras internas. São nesses momentos de extrema coragem que amadurecemos perante as adversidades da vida. Quando mesmo não tendo respostas, nos disponibilizamos a confrontar as perguntas e aceitamos que podemos aprender a viver sem ter respostas pra tudo.

É no “silêncio” de Deus que aprendemos a parar de fato para ouvi-lo. Porque mais do que uma voz no trovão ele deseja ser um Deus do íntimo. Ele nos ensina que nessas pausas da sua voz precisamos novamente admitir quem somos para que Ele possa trabalhar no verdadeiro eu. Pecador, mentiroso, iracundo, raivoso, libidinoso, procrastinador, inseguro, manipulador, defraudador, covarde, autossuficiente, cínico, controlador, intolerante, isolado, impulsivo, orgulhoso, perfeccionista…

São nos momentos de maior solidão que devemos procurar o verdadeiro cuidado e afago, nos defrontando com a realidade naquele que de fato se importa comigo e com você. Aquele que decidiu dedicar sua vida para nos ouvir e aceitar quem somos; mas também com a ousadia de se dispor a estar do nosso lado na caminhada de mudança necessária.

Quando a vontade de mudar supera o medo da vergonha, Deus se faz presente, nos acalma e mostra que nEle esses momentos podem e devem  ser vividos na sua plenitude. Ele deseja nos ver crescendo e amadurecendo cada vez mais como filhos que somos, e em cada momento de nossas vidas.

“Lancem sobre Ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês” 1 pedro 5:7