Cotidiano e Fé

Paternidade e filiação: eis a questão?

Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o
Senhor tem compaixão dos que o temem; pois ele
sabe do que somos formados; lembra-se de que
somos pó (Salmos 103:13,14)

Há mais ou menos nove meses, no sofá da minha casa fiz uma oração a Deus: “Senhor, me permite o exercício da paternidade para eu que possa melhor te conhecer”. Isso porque, há nove anos eu e minha exposa fizemos três tratamentos por indução na tentativa de termos um filho. Diante disso, depois de muitos exames, consultas, testes de gravidez negativos, o Pai Eterno me deu a graça desde de fevereiro deste ano de 2018, de saber que serei agora em setembro, pai de uma menina que já amo desde o ventre.

Defendo a tese de que ser pai é receber a oportunidade de experienciar uma faceta do amor não disponível a quem não tem filhos. Segundo a epígrafe acima, a paternidade é marcada pela compaixão. O coração de um pai nunca desiste de um filho. Fraldas trocadas, noites sem dormir, labuta pelo alimento, suor derramado, investimento financeiro, brincadeiras, tudo é feito em prol de um filho. Contudo, erros, decepções, frustrações e desapontamentos não destroem a oportunidade constante da casa aberta, do colo disponível e da possibilidade do afago paternos diante dos sucessos e/ou fracassos dos filhos. O pai continua sendo pai apesar de…

Não há reversão. Apesar de alguns acharem que sim, mas não é possível se “desfiliar” ou se “despaternizar”. Quem gera sempre será o genitor. Quem nasce sempre terá uma origem. Portanto, se somos dEle, a vida com suas alegrias e percalços há de se encarregar no estabelecimento dos trilhos para trazer à casa do Pai todos os filhos que um dia resolveram se tornar pródigos. Gastaram tudo que receberam do Pai: família, dinheiro, saúde, honra, dignidade, status, etc. Entretanto, a locotiva divina passa todos os dias nas estações dos nossos sentimentos, pensamentos e ações convidando cada um de nós ao retorno à Central da Vida.

Diante disso, o Pai Eterno se compadece de cada um de nós – humanidade desorientada em busca do prazer – esse afã nada mais é do que a saudade do Paraíso perdido e o sentimento de que algo precisa ser suprido. Em contrapartida, a pseudo-ciência que tenta negar o Criador, ainda não conseguir provar a sua não existência. Seria possível tal façanha? Será que um filho pode esquecer sua origem, esquecer quem é seu pai? Será que tais filhos já responderam para si mesmos as grandes questões da existência: Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?

Nesta direção, compreendo que Deus se compadece dos que o temem. A humanidade ainda não foi destruída porque o Pai dos pais mantém certa graça comum que paira sobre a natureza, sobre a História e sobre a vivência humana, de forma que suas marcas estão densamente presentes no universo criado. As doenças da alma (ansiedade, síndrome do pânico, depressão, etc.), a violência, a desigualdade social, a luta pelo poder são ações de filhos rebeldes que estão longe da presença, da casa, do abraço e do carinho do Pai Celeste que satisfazem e dão sentido a existência humana.

Por fim, o Pai enquanto Genitor supremo da raça humana se compadece, ou seja, se coloca em nosso lugar porque conhece a nossa formação: ele sabe que somos pó e cinza. O ser humano é o “animal” mais dependente dentre os seres vivos. Somos seres de necessidade e não de autossuficência. Além disso, a sua diferencia dos animais é pauta-se na sua incompletude e no seu inacabamento. O homem não é, ele está se tornando. E neste processo de ser-sendo é que ele se move na busca do SER MAIS. Aqui reside a minha e a sua necessidade de não congelamento, paralisia, letargia. Vida é movimento! Movamo-nos na direção do Pai que nos ama!

Cada um de nós precisa se inserir neste movimento de busca de significado e pensar: o que tenho feito da vida que meu Pai me deu? Como tenho gastado os meus dias? que valor que tenho dado à minha família, esposa, filhos, pai, mãe, trabalho, amigos e/ou Grupos de Relacionamentos? Se você tem um filho, aprenda que se você e eu que somos maus sabemos dar boas coisas, quando mais o nosso Pai Eterno não nos quer perto dEle para uma vida de plena comunhão e de significado.

Enfim, no exercício da paternidade podemos compreender melhor o tamanho, a largura, a profundidade e a altura do amor incodicional do Pai da Luzes que deseja cuidar de nós em todos os mínimos detalhes da nossa vida. Abba Pai é o seu nome e Ele quer nos abraçar todas as manhãs e nos dizer impulsionando o nosso dia para a plenitude: “Você é meu filho amado em quem eu tenho prazer!”