Cotidiano e Fé

Os totalitários somos todos nós

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Já que todo mundo ultimamente adora um fatalismo, deixem que eu começo: estamos em falência moral. As eleições são só um leve sintoma.

Entre “fascistas” e “petralhas”, uma verdade sobressai: perdemos Cristo e o trocamos por uma caricatura barata. Mergulhamos no maniqueísmo diabólico, no “nós contra eles” que a todo amante do poder interessa alimentar para preservar seu séquito fiel.

Cristo e a Escritura são somente pequenos guias cheios de frases bonitinhas (e algumas dolorosas) em que acreditamos quando tudo está bem. Ou para os quais voltamos quando sofremos.

Na verdade, na maior parte do tempo, nesse país, Direita e Esquerda foram só duas facetas da exploração predatória de um povo alimentado de migalhas. Diferenciam-se somente no embrulho das migalhas, invariavelmente pintadas como grandes conquistas nos belíssimos discursos daqueles que se locupletam no poder.

Continuamos caindo na armadilha. Continuamos construindo espantalhos. Continuamos perdendo amizades, destruindo relações, magoando nossos familiares, vilipendiando o que é importante aos outros. Amamos partidos e odiamos pessoas. Desprezamos o outro porque ele é nazista, ladrão, neoliberal, comunista ou o escambau.

Já percebeu que existem pessoas debaixo das cascas de ideologia em que você as enquadra? Já leu a Bíblia e viu o Pedro violento, o Tiago arrogante, o Paulo assassino, o Mateus corrupto, o ladrão na cruz (que nem preciso dizer que era bandido), todos perdoados e lavados no sangue de Jesus?

Mas você perde a chance de manter um amigo, até mesmo um irmão, de fazer o bem para alguém, porque esse alguém tem o adesivo do candidato que você odeia pregado no vidro do Celta dele. Aquele Celtinha no qual você pegou tantas caronas.

Generalizando, bem a grosso modo: é como se metade da população brasileira pensasse que a outra metade são corruptos oportunistas e ideólogos de gênero que mamam no Estado e fazem manifestações pelados profanando objetos de culto religioso. Essa segunda metade, por sua vez, acha que a primeira é composta de fascistas, machistas, racistas, homofóbicos, violentos, espancadores de mulheres que querem matar minorias.

Será que não dá para perceber que pode haver algo entre tudo isso? Será mesmo que toda a população brasileira entrou num declínio moral tão acentuado que não sobrou mais quem não seja radical? Será que sua tia-avó quer espancar negros ou sua prima está preparando uma revolução armada? Acredito que o leitor que respondeu “sim” é uma exceção.

Ou, quem sabe, estamos enganados? Quem sabe alguns sejam desinformados. Ou mal informados, com tantas matérias tendenciosas. Alguns não acreditam na parte que não lhes apetece — uns por mau-caratismo, outros por medo ou comprometimento ideológico. Uns creem em determinadas ideias por conta de sua criação, sua herança cultural, social, familiar — podem estar errados, mas não necessariamente são “vilões”.

Outros realmente são cruéis e radicais, pessoas de pensamento indefensável. Mas alguns, quem sabe — pasmem! — analisaram a situação e realmente, refletindo em suas convicções, se convenceram de que sua opção é mais adequada para o momento, ou menos danosa que a contrária.

A percepção de que podemos, sim, estar errados sobre algo, embora óbvia, pode ser estarrecedora quando somos confrontados de verdade com ela. Talvez a sensação só não seja pior do que, mesmo crendo estar certo, verificar que as outras pessoas também creem — e não ligam se a certeza delas não é a mesma que a sua.

Até porque, não sei dos outros, mas minha confiança é frágil na grandeza de qualquer que se propõe à vontade de poder. É possível haver exceções, mas não devemos adotar uma cegueira ideológica.

Afinal, flertes com a tirania tem aos montes, para todos acusarem uns aos outros e aos seus candidatos. É totalitarismo para todos os gostos. Inocência é achar que seu partido está isento do perigo. O poder corrompe, já dizia o filósofo. E a Palavra completa: “maldito o homem que confia no homem” (Jeremias 17:5).

Nossa verdadeira falência moral existe desde que deixamos de orar pelos dirigentes da nação para apenas xingá-los nas redes sociais. E na verdade o problema não é só a da ideologia, é também do egocentrismo, este muito mais antigo e infiltrado no coração de todos. Estamos embarcando na onda.

Tenho minhas posições políticas, minha crença em qual a melhor opção para o país e minhas convicções. Mas meu interesse aqui não é fazer propaganda gratuita de ninguém. O apelo ao povo de Deus — e, na verdade, a qualquer ser humano que preze pela tolerância e pela democracia — é que não cedamos à repetição dos mesmos jargões que nos foram exaustivamente impostos, nem nos rendamos ao discurso maniqueísta.

Disse o Francisco Razzo:

Portanto, se os críticos da “direita” usam o termo “democracia” com o mesmo zelo, rigor e precisão com que usam o termo “nazista” para atacar seus adversários políticos, é possível traçar uma ideia mais ou menos segura do zelo, rigor e precisão que eles têm pela democracia. Atenção para a simetria ideológica: isso também serve para os críticos da “esquerda” que usam com o mesmo zelo, rigor e precisão o termo “comunista” e “Venezuela”. [1]

O povo já desconfia da legitimidade das instituições que ele mesmo defende e banaliza o discurso contra o outro. Mas eu entendo. Às vezes me pego pensando se essa história de democracia foi só um delírio coletivo. Só que até o momento não achei nada melhor.

Ao cristão me refiro de forma especial, porque a ele é dado um mandamento muito difícil de se cumprir: “amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; abençoai aos que vos amaldiçoam, orai pelos que vos acusam falsamente” (Lucas 6:27-28). Há uma responsabilidade em carregar a profissão de fé com a qual enchemos nossos lábios para dizer que somos bonzinhos enquanto plantamos ódio.

É por isso que não devemos ser adeptos da chamada “esculhambação metodológica”, termo que o Yago Martins pega emprestado de André Venâncio. A ideia é que o método de discussão, mesmo que em defesa de bons valores, não pode ser desprovido de amor e misericórdia sobre a vida do outro. “Ira, cólera, raiva na defesa da verdade é serviço prestado à mentira”, diz o Yago. [2]

Ao dissonante de seu pensamento, por que não oferecer-lhe o amor em vez de desejar a morte de sua estirpe? Prefere ser mais um genocida de ideias, um abominador de diferenças, dono da verdade? Pois cada um tem o totalitarismo que merece.

Eu sei que alguém pode me xingar, em pensamento ou na cara mesmo, pela posição de suposto “isentão”. Mas, ao contrário, quero estimular que façamos escolhas, que não fiquemos em cima do muro.

Não depositar esperança acrítica em candidatos significa fazer juízo de valor real, olhar para eles e ver o que condiz com nossos princípios. Mas não torná-los salvadores nem demônios, compreendendo que o mundo espiritual já contempla ambas as categorias.

Jesus disse sobre aquele que se apega demais às coisas terrenas: “que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:36). Acho que hoje ele diria o seguinte: “que adianta ao homem ganhar a eleição e perder o seu irmão?”. Afinal, “haverá muito mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não carecem de arrependimento” (Lucas 15:7).

Nos importamos mais com um candidato do que com a salvação do nosso próximo. Dessa forma, desperdiçamos almas por divisão social. Defendemos com mais ardor um partido do que a Jesus.

Ganhando, já perdemos. Porque nessa briga de quem é menos ruim, meus amigos, os totalitários somos todos nós.

Mas quem sou eu pra falar? Sou só um fascistinha comuna, mesmo.

 

***

 

[1] O texto do Francisco Razzo citado, “A gente não vota em Hitler”: https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/francisco-razzo/nao-vota-em-hitler/

[2] Yago Martins trabalha o conceito no vídeo “A esculhambação da Direita cristã”: https://www.youtube.com/watch?v=2yinvNsGwFc

Sobre o assunto do cristão e a política, especialmente quanto ao maniqueísmo político e à supremacia de Cristo sobre a guerra ideológica, há mais material interessante dos mesmos autores citados, bem como uma pregação que me marcou recentemente. Indico as seguintes fontes: