Cotidiano e Fé

Sendo o amor a maior necessidade do ser humano, uma pergunta: “você sabe o que é amar?”

“O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo
crê, tudo espera, tudo suporta” (I Co 13.6,7)

O amor é uma das palavras mais difíceis de se definir em nosso vocabulário. O Dicionário
Miniaurélio diz que amor é: “1. Sentimento que predispõe alguém a desejar outrem. 2.
Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma coisa. 3. Inclinação ditada
por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa. 5. Afeição, amizade,
simpatia.” Dessa forma, podemos perceber que a definição de amor do dicionário está
relacionada ao sentimento e a paixão por alguém. A amizade, afeição e a simpatia, nos
trazem algum lampejo do que realmente é o amor, mas não conseguem chegar a seu
âmago.

Nesse sentido, nossa sociedade vive o amor utilitarista. Ama-se por algo mais do que pelo
amor e seu objeto: o ser amado. Ama-se porque se quer algo em troca. Nunca é
simplesmente dar, mas quase sempre receber. E quando se dá, é uma dádiva que não é
dádiva, mas barganha. Entretanto, dádiva é graça, amor interesseiro é troca. Ama-se pelo
que o ser amado tem ou pode fazer em prol de quem procura amar.

Amar não é ser feliz por aquilo que se vai ter, mas por aquilo que já se tem. Esse é um
amor ilusório. É como uma bolha de sabão: bonito enquanto contemplação, mas quando
se toca, se desfaz, acaba, perde o brilho, a vida. Tais pessoas que assim amam, colocam
o amor naquilo que não se tem, pois quando o possuem, deixam de amar. À semelhança
de alguém que se apaixona e luta por conquistar o ser amado. Quando conquista, perde o
sabor, a paixão, o desejo, e logo se aventura numa nova busca do amor-pelo-que-se-
almeja-ter, e não por aquilo que já se alcançou.

Além disso, nossa sociedade ainda vive o amor como sensação. É o amor passional.
Amar é sentir. Aquele calafrio resultado dos batimentos cardíacos alterados quando se vê
alguém que se ama e, por isso, logo vem o desejo sexual – para muitos, isso é o tudo e o
todo do amor. Mas quem disse que amar é apenas sentir? Quem disse que a realidade do
amor se manifesta quando as emoções afloram? O amor envolve sentimento, mas
transcende a sensação.

Amor é decisão mais que sensação. Amar é decidir. Amar é se dar. Amor é mais
comportamento que sentimento. O amor passa pelo sentimento, mas em sua
transcendência, chega a sua plenitude no gesto, na ação, na prática em prol do ser
amado. Quem ama sente, mas quem sente, nem sempre ama. Amar é sentir, porém, é
mais do que isso, é agir. Desde um singelo gesto de trazer um copo de água para alguém
que amamos que acabou de chegar com sede, até um carinho, um beijo, um presente, a
lembrança de uma data especial, enfim, percebemos que o amor age mais que sente,
mas também sente, por isso age. Contudo, se a sensação não leva a ação, não é o amor
verdadeiro, é mera abstração do gostar.

Amar é alegrar-se na verdade. O amor tem como base da ação a sinceridade. Sempre
vive a verdade. Não há espaço para a mentira. Fala a verdade quem ama. Amar é viver e
dizer a verdade. Sempre preza por uma gota de verdade ao invés de um oceano de
mentiras. O verdadeiro amor tem como pilar comportamental a verdade no pensar, agir e
sentir do amante pelo ser amado.

Amar é tudo sofrer. O amor traz a capacidade de lidar com o sofrimento. A despeito de
tudo e todos o amor faz com que seres humanos limitados e mortais lutem pela vida junto
ao ser amado. O amante prefere sofrer que permitir que o ser amado sofra. Amor é
autosacrifício. Não importa a situação, o sofrimento ao invés de findá-lo, eterniza-o. O
sofrimento cristaliza a relação do amante e do ser amado. Ao invés de matá-lo, ele
vivifica-o para a eternidade. Amar é saber sofrer.

Amar é tudo crer. O amor é pai da fé. Ele acredita. Acredita mesmo em face da oposição.
Ele desacredita da incredulidade. É cético em relação ao ceticismo. Para o amor não
existem palavras como: “Não posso! Não dá mais! Acabou!” Ele sempre vai lutar contra as
evidências, as provas, os laudos, as postulações. O amor é incrédulo quanto à falta da
capacidade de continuar. Seu lema é: “Vamos, seremos sempre vencedores!”. Como filha
do amor, a fé faz com que seu pai se fortaleça, eternize-se, seja perene. Amar é sempre
acreditar.

Amar é tudo esperar. O amor tem outra filha: a esperança. Ele jamais se desespera pois
sempre está esperando. O verdadeiro amor faz com que haja sempre a sensação de que
tudo pode ser mudado. Não se dá por vencido, espera, espera, espera, e continua
esperando. Muitas vezes o amor espera pela esperança, pois parece que ela foi embora.
No entanto, essa capacidade de esperar pela esperança, nasce nos momentos de crise
em que o amor é testado, provado, forjado, crisolado, para que venha a ser uma grande
joia que pode mostrar sua beleza para todos ao redor. Amar é saber esperar.
Amar é tudo suportar. Amar é transpor e vencer obstáculos. Mas não se tornar capacho
de alguém, suportando tudo, a dor do espancamento e/ou das palavras torpes, ou
desprezo que é silenciado pela truculência. Isto não é o amor, é tudo, menos o amor. No
mínimo pode ser falta de inteligência e no máximo a inexistência do amor entre o
“amante” e seu “amado”. Amar é tudo suportar para viver ao lado do ser amado. Lutar a
luta contra o des-amor. É ser e viver como vitorioso do amor mesmo em face das
circunstâncias adversas. O amor aprende a ser amor quando aprende a suportar o des-
amor.

Por fim, podemos dizer que nessa relação do amor sensação e ação, Shakespeare nos
ajuda a entender que “[…] o amor não é amor se ele muda ao encontrar uma mudança, ou
desaparece quando a frustração procura afastá-lo” (trecho do Soneto 116). Perenidade e
não transitoriedade constitui o verdadeiro amor. Eternidade e não futilidade. Segundo a
Bíblia, três coisas na vida são perenes: a fé, a esperança e o amor. A fé e a esperança
são filhas do amor. Mas o amor em sua paternidade da fé e da esperança é maior. Isso
porque só pode acreditar e esperar quem ama. Amor de coração, da alma, do âmago do
ser; de dentro, do interior; mas transcende a sensação, chega ao seu ápice: a ação. Só
podemos dizer que vivemos o verdadeiro amor se o que sentimos em nossos corações
por alguém ultrapassa a sensação, desemboca na ação, no gesto, no comportamento, na
verdade, no sofrimento, na fé, na esperança, e na vitória suportando as provações. Amor
é decisão! Assim, quem aceita o desafio de assim amar hoje?