Discografia

A volta do Rei Lagarto

A melhor época do rock’n’roll é o período que pega as décadas de 1960 e 1970. Foi ali que surgiram os mestres que influenciaram boa parte do que se ouve hoje em dia. É época de Beatles e suas experimentações. É época de Jimi Hendrix soltando fogo pelas ventas com a guitarra na mão. É época de Woodstock, o festival que, se tivesse dado certo, teria dado errado. É época de criatividade, pouca frescura e muito telento. No meio desse cenário e desse talento, um quarteto americano cravou seu nome usando e abusando de misturas sonoras, poesia e performances incendiárias. Falo do The Doors. Jim Morrison, John Densmore, Robby Krieger e Ray Manzarek, quatro amigos que, em seis anos, inventaram, chocaram e criaram histórias e lendas, boa parte delas registradas no livro The Doors por The Doors, lançado recentemente pela Editora Agir. O autor é ninguém menos que Ben Fong-Torres, editor da revista Rolling Stone nas décadas de 1960 e 1970 (um sortudo), que, de tão importante, chegou a ser um dos personagens do (excelente) filme Quase Famosos, de Cameron Crowe. O conhecimento de Torres sobre aqueles anos traz leveza e credibilidade para esta biografia que centra fogo na mítica figura de Jim Morrison, o vocalista ator, que se deixava levar pela emoção e pela loucura na hora de fazer seu heppening. Um dos pontos onde o autor mais acertou foi ao transcrever ipsis litteris a fala de seus entrevistados. A lista aí é enorme: os membros da banda, produtores, amigos, músicos, empresários e, o mais curioso, o pai e a irmã de Jim. É isso mesmo, eles não estão mortos como o vocalista costumava dizer em entrevistas. Desde que entrou para a banda, Jim não viu mais seus pais e costumava dizer que os havia perdido em um acidente. “Talvez um dia entraremos em contato novamente. Não posso ira para casa no para a ceia de Natal e depois voltar e fazer o que faço, pois eles vão querer me ver a toda hora. Não dá pra ser filho de meio período”, teria comentado ele a sua irmã, mas não se sabe quando. Torres, que interfere nas narrativas acrescentando, contextualizando e até mesmo corrigindo depoimentos, também não deixa barata a relação de Morrison com as drogas, pricipalmente quando o assunto é o alcoolismo. Assim como era imprevisível o que ele faria no palco, era imprevisível saber se ele estaria no palco ou se aguentaria fazer o show até o fim. O livro busca encadear de forma rápida tudo aquilo que foi fundamental para que a história do quarteto fosse elevada ao estatus de lenda: o encontro de Jim com o índio morto, suas confusões com a polícia, seus trabalhos solo, seus conselhos fora de hora para os fãs, etc.  The Doors por The Doors encerra com comentários sobre a vídeobiografia da banda feita por Oliver Stone em 1991 com Val Kilmer no papel de Jim. O filme dividiu opiniões que vão do total desprezo à perfeita adoração. “Esta não é a história dos Doors, mas sim o lado negro do sexo e das drogas”, comenta Ray. The Doors por The Doors é leitura obrigatória para qualquer fã de música, ainda mais para fãs de rock. Ricamente ilustrado, textos leves, rápidos e acessíveis. E um lendário autor que sabe muito bem o que diz. Os Doors merecem.